Título: MISTO DE DECEPÇÃO COM RESTO DE ESPERANÇA
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Fonte: O Globo, 28/01/2005, Economia, p. 24
A passagem de Lula pelo Fórum Social Mundial serviu de alerta sobre as contradições de seu governo, avaliaram organizadores e ativistas. Muitos reclamaram que Lula foi evasivo nas repostas sobre os rumos do governo. Para alguns, foi um misto de decepção com um resto de esperança.
¿ O Fórum Social não tem uma voz única e Lula sentiu que aqui começam a se formar grupos contra o seu governo. Eles nos disse que dirá em Davos, que não adianta virar a cara para a pobreza ¿ disse Cândido Grzybowski, da coordenação do FSM.
Na reunião, Francesca Rodriguez, da Via Campesina, uma organização rural do Chile, perguntou a Lula sobre as negociações na OMC (Organização Mundial do Comércio) relativas à agricultura. A chilena comentou que, embora não fale português e mal saiba o espanhol, antigamente entendia melhor a língua de Lula.
¿ Antes, eu também me entendia melhor, mas hoje preciso falar de modo que todos me compreendam ¿ teria respondido Lula.
Para o sociólogo Emir Sader, é preciso esperar o discurso de Lula em Davos:
¿ Há uma distância enorme entre o FSM e o governo que Lula está fazendo.
O francês Jean Pierre Bealuais, do Attac (uma das ONGs que criaram o FSM), disse que ficou uma mescla de ¿decepção e um resto de esperança¿ com Lula, para boa parte da comunidade internacional do Fórum.
¿ Lula destacou seus êxitos na política internacional, mas não respondeu com precisão às críticas aos aspectos sociais do governo. Ou seja: há uma mistura de decepção com um resto de esperança.
Fundador do FSM, o francês Bernard Cassem, propôs a adesão do Fórum a Lula:
¿ Visto do exterior, o Fórum é muito associado a Lula. Sua candidatura e sua vitória passaram por aqui. Um fracasso de Lula repercutirá sobre nós. Vão dizer: ¿Olha lá o que seu amigo Lula fez...¿
Antes de discursar para os ativistas, o presidente reuniu sete de seus ministros do PT e conversou por mais de duas horas com a cúpula do encontro, anteontem à noite. Explicou suas posições e ouviu quatro perguntas dos integrantes do Conselho Internacional do FSM.
¿ Lula tinha uma operação de risco pela frente, que era falar ao público. Antes, teve um gesto político com o Conselho, que, para alguns, soou como parceria e, para outros, como uma espécie de política de boa vizinhança.