Título: TANGO ARGENTINO
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 30/01/2005, O País, p. 4

O fantasma da moratória argentina ronda o Brasil. Enquanto somos apontados em todas as reuniões como exemplo de país que está encontrando seu caminho de progresso respeitando as normas financeiras internacionais, a Argentina é o patinho feio do Fórum Econômico Mundial. A qualquer momento encontra-se algum consultor internacional, ou um especialista financeiro, para afirmar que não há possibilidade de a renegociação da dívida argentina ser considerada um sucesso, mesmo que se chegue a uma aceitação de 50% dos credores.

A tese predominante é que, com o nível de calote que está sendo proposto pelo governo argentino (um desconto de cerca de 75% da dívida), qualquer resultado representa uma não-solução, que vai inviabilizar por muito tempo o reingresso da Argentina no sistema financeiro internacional. O medo generalizado aqui em Davos é que a renegociação nos termos propostos pelo governo argentino, se considerada bem-sucedida, possa gerar um mal-estar no governo brasileiro, que vem assumindo uma posição rigorosa no cumprimento dos acordos internacionais.

O Brasil é apontado em todos os fóruns como exemplo de país que conseguiu superar os problemas econômicos dentro das regras do mercado, o que é previsivelmente muito valorizado por aqui. A tal ponto que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, comentava com tom irônico como é bom estar aqui, onde só recebe elogios. Ao contrário do que acontece no Brasil, onde a atuação do Banco Central aumentando os juros vem recebendo muitas críticas.

De fato, a cautela com que as críticas são feitas -¿ quando o são ¿ à rigorosa política de combate à inflação no Brasil, não comporta nem mesmo a possibilidade de que esteja havendo um exagero na administração do remédio amargo. O máximo que se consegue ouvir por aqui, por parte dos representantes do mercado financeiro, é que a política de juros no Brasil tem que, a longo prazo, caminhar para uma redução da taxa real, que hoje está acima de 11% ao ano. E para essas críticas suaves, Meirelles tem uma resposta tranqüilizadora: a trajetória é cadente em termos históricos. Os juros reais já estiveram na casa dos 20%.

A preocupação com o ¿mau exemplo¿ argentino é tão grande que o crescimento de 5% do Brasil no ano passado é muito mais elogiado do que o de perto de 9% da Argentina. Os diversos casos de países que, depois da bancarrota, retomaram o crescimento de maneira agressiva, são repetidos freqüentemente, para desqualificar a performance do país caloteiro: Coréia, Rússia, Venezuela, todos cresceram até 12% nos anos subseqüentes às suas crises.

O mais difícil, dizem os analistas financeiros, é manter o crescimento, o que será impossível para a Argentina sem que volte a se integrar ao sistema financeiro internacional. O Brasil é considerado exemplar por esses setores, pois as autoridades procuram ressaltar os programas que estão sendo realizados na área social para mostrar que um governo de esquerda não abre mão de seus compromissos, mesmo seguindo as regras ditas neoliberais do mercado internacional.

Ao mesmo tempo, as reformas estruturais que vêm sendo realizadas em vários campos ¿ previdenciário, judiciário, tributário ¿ mesmo que não sejam nem definitivas nem as mais apropriadas, são apontadas como o caminho que deveria ser seguido por países como a Argentina, que precisa combater a ineficiência de sua máquina pública e reorganizar o Estado se quiser manter o nível de crescimento que vem alcançando ultimamente.

O fato é que por mais que tenha crescido, a Argentina ainda não conseguiu voltar aos níveis que sua economia atingia em 1998. Por tudo isso, a preocupação é que o aparente sucesso argentino possa provocar pressões políticas no Brasil por mudanças na linha econômica. Um dos pontos mais ressaltados em diversos painéis e seminários aqui em Davos é a capacidade do presidente Lula de assumir posições impopulares na economia, enfrentando incompreensões no seu próprio grupo de apoio.

O que não seria o caso do presidente argentino Néstor Kirchner, que se prepara para as eleições no final deste ano e por isso estaria assumindo posições populistas, mesmo sabendo que não são soluções definitivas para o país. O receio é de que Lula acabe não resistindo às pressões caso, em algum momento, os resultados não apareçam, ou uma crise internacional obrigue a opções mais duras ainda. Contra essa possibilidade, o presidente do Banco Central lembra sempre as palavras do ministro Lavagna, da Economia, que disse que o calote não deve servir de exemplo a nenhum país, pois está custando muito caro à Argentina.

Na coluna de sexta-feira, eu escrevi que o presidente Lula precisava ter um assessor que o lembrasse de que é humano, assim como os imperadores tinham. O leitor Sérgio Cavallari manda uma explicação histórica do caso. Segundo ele, não eram os imperadores que se submetiam à humilhação popular, mas os generais comandantes das tropas. Estes só podiam entrar em Roma com seus soldados se autorizados pelo Senado (veja que belo ensinamento !) numa cerimônia chamada Triunfo e mesmo assim se provassem terem matado 4.999 inimigos.

No desfile, os generais participavam de pé, em um carro tirado por dois touros brancos, ornamentado com enfeites de ouro, prata e flores, usando uma coroa de louro. Por trás do comandante, um soldado segurava-lhe a coroa sobre a cabeça e repetia-lhe ao ouvido os xingamentos do povo e dos demais soldados. Tais xingamentos atingiam até mesmo a família do general, mãe, esposa, filhas, filhos.