Título: 'CASEI COM A POLÍTICA, MAS A LITERATURA FOI A AMANTE'
Autor:
Fonte: O Globo, 30/01/2005, O País, p. 14

Sarney diz que só há uma coisa pior que dirigir um partido político: ser presidente da Funai

Quais seus planos para quando deixar a presidência do Senado?

SARNEY: Quero ver se tenho mais tempo esse ano para terminar minhas memórias. Estou devendo isso a mim mesmo e ao país, que não entenderia que um homem que tenha sido intelectual não tivesse registrado em livro sua experiência pessoal.

Pretende também se dedicar mais às questões locais, ao Maranhão?

SARNEY: O Maranhão está muito bem entregue para Roseana, uma coisa que me deixa muito feliz, ver que ela tem seu próprio destino. Não preciso estar no Maranhão. Roseana comanda.

O senhor disse que não queria mais se candidatar. Ainda está pensando assim?

SARNEY: Como tenho uma grande vocação pública, não tenho meios de dizer "olha, a partir de hoje vou sair da política", quando vejo que posso ajudar o país. Tenho ajudado e continuo sendo solicitado a ajudar. Mas tenho o desejo de dar mais atenção à literatura. Me casei com a política, mas a literatura foi minha amante. E não falhei um dia com ela.

Fala-se em seu nome para presidir o PMDB. O senhor gostaria?

SARNEY: Não. Fui presidente de partido com 29 anos. Fui vice-presidente da UDN nacional com 34. Fui presidente da Arena, do PDS. Só há um cargo mais espinhoso que presidente de partido, é presidente da Funai. Lá, os índios vêm com o tacape na mão. No partido, abrem a porta e já dizem: "Esse partido está todo errado! Não funciona!".

Há solução para as tribos do PMDB?

SARNEY: O PMDB é um partido extraordinário, tem uma vitalidade, não é um partido certinho. O PMDB não toma Lexotan. Foi o germinador de todos os partidos brasileiros. É justo que fique um pouco debilitado, perdeu musculatura. Mas fizemos o maior número de prefeituras.

Qual o maior desafio do governo nos próximos dois anos?

SARNEY: O governo Lula ultrapassou muitos obstáculos. Com todas as dificuldades, retomou o desenvolvimento econômico, baixou a um dígito a taxa de desemprego. Não significa que não tenha problemas.

Quais os piores?

SARNEY: Há problemas difíceis de gestão, como a infra-estrutura de estradas e portos. Mas os números macroeconômicos são bons e a sinalizações, excelentes. O povo também tem essa percepção. O último líder brasileiro que conseguiu essa empatia com o povo foi Getúlio Vargas. Depois, passou a ser Lula.

A experiência da senadora Roseana, de dois governos no Maranhão, pode ajudar o governo Lula?

SARNEY: Sei aonde vocês querem me levar. Não quero me meter de nenhuma maneira, até porque é uma diminuição para ela. Ela tem grande experiência administrativa. Durante dois mandatos foi a governadora mais bem avaliada do Brasil. Mas não tenho nada que ver com sua escolha. Não sei se aceita, também não sei se o presidente quer convidar.

Qual seu legado político?

SARNEY: A democracia. Nós não apenas restauramos as instituições, nós criamos uma sociedade democrática, fato que não ocorreu em outros países que saíram de um processo autoritário. Acho que meu temperamento serviu muito para isso. Todos achavam que eu deveria dar murro na mesa, mas eu deixava que a sociedade flutuasse muito mais. A democracia no Brasil está consolidadíssima.

Até outubro acreditava-se que sua sucessão seria uma guerra, devido à postulação do senador Renan Calheiros. O ano acabou e tudo se acalmou. Como isso se deu?

SARNEY: É porque o senador Sarney não é de guerra, é de paz. Vocês ouviram de minha parte muitas vezes que eu acompanhava o processo, mas não estava interferindo. Seria muito ruim que nessa altura da vida eu ficasse lutando para ser reeleito. Renan sempre foi um companheiro que ao longo dos anos esteve muito próximo.