Título: SETOR SE RECUPERA EM PERNAMBUCO
Autor: Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 30/01/2005, Economia, p. 38

Depois de enfrentar um período difícil, em que 18 das 43 usinas e destilarias fecharam, reduzindo de 240 mil para 100 mil o número de trabalhadores rurais, a indústria sucroalcooleira começa a respirar outra vez em Pernambuco. O setor responde por 40% das exportações do estado, mas a briga por uma fatia no mercado externo do álcool ainda está começando. O Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco estima que apenas 10% da produção sejam exportados. O volume é cinco vezes maior do que há um ano, mas empresários do setor acreditam que os efeitos gerados a partir do aumento da demanda internacional pelo produto, por pressão da legislação ambiental, vão demorar.

Não é difícil observar a importância da indústria na economia dos municípios. Em Camutanga, cidade a 113 quilômetros de Recife, a prefeitura atribui à Usina Olho D¿Água peso de 90% na arrecadação de ICMS e também forte participação na absorção da mão-de-obra sem especialização do local. A empresa é a maior produtora de açúcar e de álcool do estado: 140 mil toneladas de açúcar e 36 milhões de litros de álcool na atual safra, dos quais 9 milhões são exportados, principalmente para o Canadá.

¿ Dos postos de trabalho gerados no município, 70% devem-se à parte industrial ou aos engenhos da usina ¿ afirma o prefeito de Camutanga, Armando Pimentel da Rocha (PSDB).

Trabalhadores vivem na miséria durante a entressafra

Waldecir José da Silva, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Camutanga, afirma, porém, que o tempo de vacas gordas depende da moagem da cana-de-açúcar:

¿ Na época da moagem tem salário, emprego, mas, quando a safra acaba, 70% dos trabalhadores ficam sem trabalho, perambulando pela periferia da cidade e até mendigando.

O prefeito lembra que na entressafra ¿ entre março e agosto ¿ aumenta a demanda por remédios, trabalho e cestas básicas na prefeitura.

¿ Em anos secos, quando a safra é menor, os problemas se antecipam. O trabalhador não tem reservas financeiras ou alimentícias e passa de seis a sete meses sem renda. Isso se reflete na pobreza do município, onde 20% das casas ainda são de pau-a-pique e o déficit habitacional é grande. Encontramos de duas a três famílias morando em um só imóvel ¿ diz Rocha.

Segundo o diretor presidente da Olho D¿Água, Gilberto Tavares de Melo, a usina tem três mil empregados, que se espalham por Camutanga e municípios vizinhos, já próximos à divisa com a Paraíba. O empresário afirma que oferece escola para 600 crianças, ambulatório, casa para 350 trabalhadores permanentes em sua vila operária, ônibus para transporte do campo à cidade e clube com piscina para funcionários.

¿ Dizendo é tudo muito bonito. Mas eu sustento 12 pessoas, planto um roçado de inhame no meu município e ainda corto cabelo na feira. Se não for assim, o dinheiro do salário não dá nem para comer ¿ afirma José Pedro Rodrigues, 54 anos, cortador de cana desde os 13 e contratado com carteira assinada durante seis meses por ano no engenho Zumbi.

No Nordeste, setor gera 320 mil empregos diretos

No restante do Nordeste, o setor gera cerca de 320 mil empregos diretos, de acordo com o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool, Renato Cunha. A previsão é de que seja produzido 1,8 bilhão de litros de álcool na atual safra, sendo que 10% serão exportados. Cerca de 50% do açúcar vão para o mercado externo. No Nordeste, há 5,8 empregos por tonelada de cana produzida, contra a média de 1,5 no país.

¿ O arranjo produtivo da cana no Nordeste está consolidado, mas o governo federal precisa desconcentrar os investimentos no Centro-Sul e no café, na borracha e no cacau ¿ diz Cunha.