Título: `Estamos às vésperas de uma guerra civil¿
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Fonte: O Globo, 30/01/2005, O mundo, p. 42
Herdeiro de Edward Said questiona valor da votação, papel da al-Qaeda na insurgência e sucesso da ocupação do Iraque
Bush abriu a Caixa de Pandora e agora o Iraque está à beira da guerra civil e da implosão, diz ao GLOBO, em tom cortante, Rashid Khalidi, diretor do Instituto do Oriente Médio da Universidade de Columbia. Num dos momentos mais polarizados da vida dos EUA, ele se equilibra na estreita linha entre professor de história e analista político na tentativa de ampliar o conhecimento dos americanos sobre a região-chave para a paz mundial. Considerado brilhante por seus pares, este nova-iorquino filho de libaneses é o primeiro acadêmico a ocupar a nova cátedra de Columbia batizada de Edward Said, em homenagem ao professor que foi porta-voz informal da causa palestina e morreu ano passado. Que importância tem a eleição para o Iraque?RASHID KHALIDI: Não acho que fará muita diferença. A insurgência, a emergência do sectarismo, o colapso da sociedade iraquiana, todo esse processo não vai ser afetado pelas eleições. Talvez seja exacerbado, se não houver uma retirada das tropas americanas e um consenso entre as principais facções iraquianas. As eleições não são importantes, o país está à beira da implosão e esta eleição está fazendo as coisas piorarem. Estas eleições são consideradas importantes em Washington, mas eles vivem em outro mundo. Ninguém no mundo leva a sério a retórica do governo Bush sobre o Iraque. A maioria dos americanos também acredita que esta guerra não funciona e elegeu Bush não por causa do Iraque, mas por causa da posição dele sobre o casamento gay, o 11 de Setembro, a redução dos impostos. Acho que nos próximos quatro anos o fosso entre os americanos e Bush vai aumentar. Sua previsão é de que os Estados Unidos vão reviver o trauma do Vietnã? KHALIDI: No Vietnã todos os que tinham um filho adolescente foram afetados. Agora, é um Exército profissional que está no Iraque (jovens já não são convocados), o impacto sobre a opinião pública é mais lento. No Vietnã eram 500 mil americanos, agora são 150 mil, menos de um terço. O extraordinário progresso da indústria farmacêutica está fazendo com que o número de mortos seja bem menor. É importante pensar que além dos cerca 1.400 mortos, foram feridos entre 13 mil e 15 mil americanos. Se juntarmos estes dois números veremos que mais pessoas foram atingidas do que nos primeiros dois anos de guerra no Vietnã. Tudo vai depender de os insurgentes continuarem a escalada dos ataques.Acha que a al-Qaeda tem papel importante nos atentados no Iraque?KHALIDI: Não e também não acho que a al-Qaeda responda às aspirações básicas do povo do Oriente Médio. As pessoas no Iraque não estão lutando pela al-Qaeda. Os que estão lutando no Iraque não são nem necessariamente muçulmanos, muitos são ateus. A espinha dorsal da insurgência no Iraque são os baathistas, o serviço secreto e os militares do antigo regime. Os ataques são organizados por pessoas que estão furiosas com os americanos. Os muçulmanos e a al-Qaeda também participam mas não são os atores mais importantes. São 200 operações por mês, sete dias por semana. Os assassinatos de líderes e os homens-bomba são da al-Qaeda, mas o real movimento insurgente, que envolve milhares de pessoas é uma rede de iraquianos, baathistas, islâmicos. Todos esses grupos estão agindo juntos. É um movimento interno, não vem da al-Qaeda. Os iraquianos estão lutando contra os americanos por razões iraquianas.Para o senhor, a maioria do povo iraquiano é contra a ocupação americana?KHALIDI: É, senão a insurgência não existiria. Exceto os curdos, que dependem dos EUA para terem autonomia e alcançarem uma distância do governo central de Bagdá. Eles apóiam a ocupação porque estão lutando por seus direitos, mas não querem a interferência americana em suas histórias. Os xiitas estão felizes por verem os americanos lhes dando o controle do Iraque. Estão usando a ocupação americana e a eleição para obter poder. Têm o apoio da maioria e pretendem chegar ao poder, o que é uma aspiração legítima. E eles também querem que os americanos saiam do país. Vamos ver o que acontecerá com a minoria sunita. Isto vai ser um grande problema. Que mudanças espera na política americana nos próximos quatro anos?KHALIDI: Temo muito o agravamento dos conflitos com os palestinos, a ocupação no Iraque ficará mais sangrenta e acho que os EUA vão entrar em algum tipo de confronto com Irã e Síria. A invasão do Iraque foi a pior decisão estratégica dos EUA nos últimos 35 anos, talvez desde a Segunda Guerra Mundial. Bush abriu a Caixa de Pandora. Não tenho idéia de como vão resolver estes problemas que criaram. Temo pelo futuro dessa região. Acho que estamos às vésperas de uma guerra civil e da implosão no Iraque. Se for verdade a indicação de que os EUA vão entrar em confronto com Irã e Síria, Deus nos ajude.