Título: Toque popular
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 01/02/2005, O País, p. 4

A glamourização dos debates do Fórum Econômico Mundial, onde pela primeira vez desde há muito tempo os destaques do espetáculo em Davos foram as estrelas de Hollywood e não os principais CEOs do mundo ou os chefes de Estado, foi muito criticada aqui durante o encontro que terminou domingo, embora a atuação de algumas delas, como a atriz Sharon Stone recolhendo donativos para mosquiteiros na Tanzânia, tenha ajudado a dar ao Fórum um toque de simpatia com que ele dificilmente contaria em outras ocasiões.

Na verdade, embora isso não seja confirmado pelos organizadores, o que se tentou trazendo ao mesmo tempo para o encontro artistas como Bono Vox, do U-2; Peter Gabriel, Richard Gere, Angelina Jolie, Lionel Richie e a própria Sharon, foi dar esse toque de popularidade ao evento, ao destacar o trabalho social que eles vêm realizando pelo mundo. Todos os artistas convidados participam de campanhas contra a Aids na África, ou fazem parte de ONGs e movimentos sociais que lutam em causas que vão desde a defesa do Tibet, até o combate a epidemias na Índia, ou a defesa dos direitos humanos.

O precursor desse traço de união entre o empresariado mundial e os artistas foi o escritor brasileiro Paulo Coelho, que faz parte do conselho do Fórum Econômico Mundial há muito tempo, e todos os anos tem participação ativa nos seminários. Este ano Paulo Coelho, além de ter sido requisitado para encontros com várias das estrelas do Fórum (empresários e estrelas mesmo, como Sharon Stone), participou de eventos que discutiram desde a criatividade dos artistas, até o combate à fome no mundo.

Os artistas tiveram momentos de pura ingenuidade, como quando Angelina Jolie disse que faz filmes apenas para ganhar dinheiro e poder se dedicar a causas sociais, ou quando Richard Gere admitiu que era um alienado e que sua vida mudou depois que foi pela primeira vez à África.

O cantor irlandês Bono Vox, eterno candidato ao Prêmio Nobel da Paz por suas atividades filantrópicas, fez uma boa piada: disse que não gostaria de ser primeiro-ministro inglês porque mora em uma casa maior que a de número 10 de Downing Street.

Reafirmando a tendência, nesta edição o Fórum de Davos teve uma maior incidência de seminários e painéis debatendo questões que vão além da gestão das companhias ou dos investimentos internacionais, tais como a necessidade de as empresas terem um lucro socialmente justo, ou a discussão sobre por que os países ricos não podem comprar felicidade.

É provável que já no próximo ano seja evitada uma concentração tão grande de artistas, para que o Fórum não perca seu foco principal, que é o de dar os parâmetros básicos para a atividade econômica internacional no futuro imediato, e farejar os perigos e os desafios que as grandes corporações e os governos têm pela frente a médio prazo.

Mas este ano era preciso fazer alguma coisa para que o Fórum Econômico saísse de uma letargia perigosa, que o identifica mais e mais com o lado perverso da globalização. Também os empresários apareceram muito mal em pesquisas feitas a pedido da organização do Fórum.

A pesquisa do Gallup realizada em 60 países, refletindo a opinião média de mais de 1,2 bilhão de pessoas, mostrou que os líderes empresariais são vistos com desconfiança pela opinião pública. A percepção do público é de que os empresários só respondem a pressões poderosas, e têm mais poder do que deveriam.

Por isso o Fórum Econômico Mundial quer se aproximar do cidadão comum e refletir seus anseios, e nada melhor do que uma foto de empresários doando fortunas a Sharon Stone para combater a malária na Tanzânia, ou Bono Vox abraçando Lula, o ex-operário que hoje preside o Brasil, parabenizando-o pelo combate à fome.

São jogadas de marketing assim que ajudam a reforçar, ou a mudar, a imagem de um político, ou popularizam um encontro como o de Davos, assim como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, se dizendo ¿Hugo, o campesino (o camponês)¿, num acampamento dos sem-terra em Porto Alegre, defendendo a ¿revolução agrária¿, marca a imagem de radicalismo do Fórum Social Mundial.

Também a escolha dos temas que foram debatidos em Davos este ano refletiu a preocupação com o equilíbrio e justiça sociais, e entre os seis pontos definidos como prioritários, apenas dois eram temas que dominaram a cena internacional nos últimos meses: Oriente Médio, que obteve 43,7% dos votos; e governança global, referente ao funcionamento dos organismos internacionais como a ONU e a OMC, com 43,2%.

Os quatro temas considerados prioritários e mais urgentes pelos líderes empresariais e representantes da sociedade civil ¿ combate à pobreza, com 64,4%; globalização equilibrada, com 54,9%; mudanças climáticas com 51,2%; educação, com 43,9% ¿ são ligados aos problemas mais imediatos do dia-a-dia das populações.

Por isso, ao encerrar o Fórum no domingo, os principais líderes repisaram uma recomendação que já havia sido feita no início dos trabalhos, há cinco dias: a necessidade de que sejam encontradas soluções concretas para as questões levantadas, para que não se percam as boas intenções e os bons propósitos apresentados nos painéis.

A começar pelo combate à fome e à pobreza no mundo, cuja efetividade se perde na burocracia dos organismos internacionais, quando não nas disputas políticas para decidir quem define a agenda. É preciso que as centenas de cartões de visita de empresários que foram entregues a Sharon Stone se transformem em dinheiro de verdade para que os mosquiteiros da Tanzânia virem realidade, e não apenas mais um golpe de marketing.