Título: Fantasia x realidade
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 02/02/2005, O País, p. 4
Com a divulgação de um documento não oficial, mas representativo do pensamento predominante no Fórum Social Mundial, e de diversos artigos e entrevistas de alguns dos seus principais organizadores, fica cada vez mais evidente a distância que separa o hoje presidente Lula de seus antigos companheiros.
Mais ainda, fica clara a necessidade de Lula persistir no intento de fazer uma ponte entre os Fóruns Social e Econômico, que o motivou desde a primeira vez em que compareceu aos dois encontros, assim que foi eleito, numa demonstração de que considera essencial pelo menos tentar equilibrar essa correlação de forças.
Continuo achando uma bobagem a declaração do presidente Lula de que mudou a agenda de Davos, mas já não a considero risível, antes ao contrário. Identifico agora nela não a pretensão de mudar o mundo, mas uma tentativa de convencer seus companheiros de esquerda de que vale a pena tentar influir politicamente na mudança dos rumos do mundo.
Em vez de risível, o esforço de Lula para trazer para o campo da negociação política o radicalismo dos organizadores do Fórum Social Mundial mostra-se quase patético, e não apenas pelas vaias que recebeu. A maneira estereotipada com que alguns dos organizadores do Fórum Social definem os participantes do encontro de Davos, falando em ¿homens de mala preta¿ ou de ¿colarinhos brancos prepotentes¿, não é apenas infantil ou ultrapassada. São bobagens que impedem reais avanços. Dividir a humanidade entre os ¿homens bons¿ que estão todos em Porto Alegre, e os ¿maus¿, que se reúnem em Davos, é de um primarismo surpreendente.
A criação do Fórum Social, há cinco anos, em contraposição ao Fórum Econômico, foi uma bela idéia, que deu certo em pouco tempo e ajudou, aí sim, a mudar a agenda puramente econômica de Davos. O passo seguinte foi uma inédita conferência entre representantes dos dois Fóruns, em tempo real, que deveria ter evoluído para um encontro de representantes dos dois grupos. O presidente Lula, recém-eleito, assumiu a tarefa de fazer essa ponte, e até agora tem esbarrado na intransigência do Fórum de Porto Alegre.
Veja-se pontos do documento divulgado após o Fórum Social: alguns assuntos estão na pauta mundial, como o perdão da dívida dos países pobres e a taxação internacional sobre movimentações financeiras, saídas que também foram apoiados no Fórum Econômico por políticos de direita como o presidente da França, Jacques Chirac, e o ministro inglês Gordon Brown.
O presidente Chirac reagiu negativamente quando o presidente Lula fez a primeira proposta, de taxar as vendas internacionais de armas para formar um fundo contra a fome. O G-8, então, nem levou o assunto em consideração. Não era para menos: no final de janeiro, o governo francês enviou ao Parlamento um relatório onde aparece como o terceiro maior exportador mundial de armamentos, atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra, e à frente da Rússia e da Alemanha. Esses cinco países, por sinal, dominam 90% do mercado internacional.
Os 10% restantes do mercado são ocupados por outros seis países, entre eles o Brasil. O presidente Lula contemporizou e disse em Davos este ano que qualquer taxa lhe agradaria, desde que criasse um fundo para combater a pobreza, dando margem a que Chirac aderisse à idéia. Mas, como não acreditam que a política seja a arte do possível, os signatários do Documento de Porto Alegre exigiram também o impossível, sem entender que assim fazendo anulam a possibilidade de conseguir vitórias verdadeiras.
O documento pede o fim dos paraísos fiscais, das bases militares estrangeiras, a transferência da ONU para fora dos Estados Unidos, ¿preferencialmente para um país do Sul¿, e o fim do livre comércio sob a coordenação da Organização Mundial do Comércio. Já o presidente Lula, pragmaticamente preso à realidade de um governo democrático num mundo globalizado, tem outro tipo de enfoque: leva o governo brasileiro a disputar mais espaços nos organismos internacionais, mesmo que esse possa ser um caminho discutível, como a briga por um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Há quem considere que esse deveria ser um tema prioritário para o governo brasileiro, já que mesmo que ganhe um lugar permanente, o Brasil, como os demais novos integrantes do novo Conselho de Segurança, não teria poder de veto, o que deixaria as coisas no mesmo lugar e nos daria apenas mais chance de desgaste com os Estados Unidos, contra o qual nos opomos historicamente nas votações da ONU.
Também na Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil vem atuando com bastante eficiência, sendo o seu mais festejado feito a criação do G-20, grupo de países em desenvolvimento que, unidos, têm conseguido avanços nas negociações internacionais. Ser contra os organismos multilaterais internacionais como a OMC é ser contra os países pobres, é querer que a ¿lei da selva¿ se imponha nas negociações internacionais, com o óbvio resultado de que os mais fracos perderão sempre.
Assim como imaginar ser possível organizar o mundo livre do poder hegemônico dos Estados Unidos é apenas alimentar mais um sonho impossível. Ao contrário, enfrentar essa hegemonia organizando um amplo apoio regional na América do Sul, com o fortalecimento do Mercosul, e tentando que a ¿geografia comercial¿ do mundo se altere em favor dos países em desenvolvimento, pode ser também uma fantasia, mas é um sonho possível. Mesmo que, em política internacional, o melhor talvez seja apenas lidar com as realidades.
Como se vê, o presidente Lula, que certa ocasião classificou o Fórum Social Mundial de uma feira ideológica onde qualquer um apresenta qualquer idéia, tinha razão nas suas críticas. O duro é desconfiar que se não tivesse vencido a eleição em 2002, Lula poderia estar entre os signatários desse documento.