Título: QUE DIZER DO CARNAVAL?
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Fonte: O Globo, 05/02/2005, Opinião, p. 7

O carnaval é uma realidade que invade a vida dos brasileiros, queiramos ou não. É um acontecimento que se apresenta como uma das características de nosso país. Diante dele há os indiferentes, os hostis e os entusiastas. Um pastor não pode permanecer alheio a um fato que se repete anualmente com profundas repercussões na comunidade. Que pensar, que dizer do carnaval?

O próprio Deus suscita as expansões de alegria: "Vinde, clamemos de alegria por Javé" (Salmo 95,1). São justas, em nossa vida, estas manifestações. O Senhor as promete a seus filhos. No início do capítulo 28 do Deuteronômio, há uma descrição da felicidade dos que, na Terra, observam os preceitos de Javé. Mesmo o vinho, usado com parcimônia, é como um presente de Deus para a satisfação dos homens. Assim, "a vindima é um tempo de festa" (Isaías 16,10). Os festejos ruidosos não estão excluídos pela Lei de Deus. E a eles se atribui benéfica repercussão na própria saúde: "Coração alegre, bom remédio; um espírito abatido seca os ossos" (Provérbios 17,22). O que Deus proíbe é o gozo que vem do pecado, "dos que se alegram por haverem feito o mal e se aprazem de sua maldade" (Provérbios 2,14).

Muitos aspectos dispensam comentários. Há exageros patentes, e o próprio bom senso sobre eles nos adverte. Nota-se, por outra parte, a alegria dos menos favorecidos pelos bens terrenos. No intuito de evitar falsas escolhas e prevenir males, algumas considerações são merecedoras de atenção.

A fonte de muitas faltas é o clima irreal, em que muitos se colocam, como se os três dias fossem o ambiente normal e duradouro de nossa existência. Nessa perspectiva, abusos são cometidos, ora pela falta de força coercitiva da opinião pública, que quase desaparece nesse período, ora pela nossa tendência ao pecado, resultado da falta original.

A preocupação não se limita aos três dias, mas se estende ao período imediatamente posterior. O triste espetáculo do encerramento, estatísticas de crimes amplamente divulgadas, inclusive no exterior, mostram uma imagem pouco lisonjeira do nosso povo. As conseqüências de atitudes, de gestos, a volta brusca à dura realidade do dia-a-dia podem provocar efeitos negativos, destruindo o eventual bem-estar de muitos pela fruição de um folguedo. A vida não se identifica com o clima do carnaval, mas este é apenas um episódio passageiro, não raramente prejudicial.

No tríduo momesco, ao lado de aspectos até mesmo positivos, há uma incrível proliferação de espetáculos deprimentes. Acresce que as aberrações, particularmente no âmbito sexual, sucedem-se diante de uma platéia e são transmitidas para milhões de telespectadores. A apresentação é feita de maneira a aliciar seguidores, sem distinção de idade. E o convite aos atos, à satisfação de paixões exacerbadas, tudo é bem acobertado até por motivos culturais, que anestesiam consciências ou arrastam vontades débeis, incapazes de resistir aos atrativos do mal.

Leva-se ao mundo uma falsa imagem do Brasil, como a terra da libertinagem, das mulheres fáceis a convites inconfessáveis, do turismo que explora sexualmente crianças, cuja iniciação começa com os desfiles carnavalescos.

Ao lado da falta de pudor, há o desrespeito aos sentimentos de milhões de brasileiros. A exploração de objetos sacros, tentativas insanas de inseri-los em um ambiente com características luxuriosas, ferem a índole de grande parte do nosso povo. Por mais de uma vez, foi necessário a Igreja apelar à Justiça para fazer respeitar os mais elementares valores cristãos. Os que pensam diferentemente dos que optam pela liberdade sexual têm o direito, amparados pelas leis, de ver preservado seu modo de vida, de acordo com suas crenças.

A culpa não é somente do carnaval, mas também dos que incentivam o consumo da droga, os bailes violentos, a jogatina, a prostituição, a ilusão dos preservativos diante do mortífero HIV, a luxúria, expondo tudo o que desperta as paixões libidinosas. Cada cidadão que assim age, por palavras e atitudes, promove a destruição da estrutura ética de uma sociedade. Merecem lugar de especial destaque os que se acovardam diante de uma opinião pública que condena qualquer restrição moral, a pretexto de respeito à liberdade.

Quer optando pelos festejos carnavalescos, quer preferindo o descanso e o retiro, o importante é que seja sempre preservada a Lei de Deus.

D. EUGENIO SALES é cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro.

A vida não se identifica com o clima do carnaval, é apenas um episódio passageiro