Título: PT em crise existencial
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 10/02/2005, O País, p. 3
O Partido dos Trabalhadores completa hoje 25 anos no divã. Desconfortável no figurino governista e escaldado com derrotas na eleição de 2004, como em São Paulo e Porto Alegre, o partido pretende transformar a festa do jubileu de prata em uma espécie de terapia de grupo. O objetivo é frear o crescente pragmatismo eleitoral e resgatar valores históricos, como a militância, relegados nestes dois anos de governo. O presidente nacional do PT, José Genoino, recorreu ao teórico alemão Max Weber (1864-1920) para explicar o dilema em que o partido se encontra.
¿- Quando você é governo tem que equilibrar aquilo que o Weber chamava de ética das convicções com a ética da responsabilidade. Esse equilíbrio é tenso, difícil e não tem fórmulas mágicas ¿- afirma Genoino.
Além do desconforto provocado pela chegada ao poder, o PT pretende repensar os métodos de campanha adotados pelo partido nas últimas eleições.
¿- Diria francamente que é um pé no freio do excesso de pragmatismo. O pragmatismo tem limites. Temos que fazer campanha com menos aparatos, menos marketing, e mais militância. O PT exagerou no marketing em 2004 ¿ admite Genoino.
No lugar de shows, debates e reflexão
O principal instrumento para a guinada é o calendário de comemorações dos 25 anos do partido. Secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, explica o eixo que norteou a elaboração desse calendário: menos festa e mais reflexão.
¿- Não terá confete, Zezé Di Camargo e Luciano nem Duda Mendonça. Nada contra o Duda, mas não será um show, será um evento do PT à moda antiga. Arrisco dizer que será uma forte guinada à esquerda.
De acordo com Genoino, o PT está avaliando se renovará o contrato com o publicitário baiano. A festa começa dia 19 com uma plenária em Belo Horizonte. Para reforçar o caráter autônomo do PT em relação ao governo, a mesa será composta apenas pelos integrantes da executiva nacional do partido. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros petistas ficarão na platéia ao lado de militantes anônimos.
Mas o ponto alto será o ciclo de debates de 21 a 24 de março, em São Paulo. Para discutir temas explosivos como ¿o rumo histórico da esquerda e o papel do PT¿, ¿perspectiva do projeto nacional¿, ¿política e desenvolvimento econômico¿ e ¿os rumos do PT¿, o partido escalou nomes associados à velha esquerda petista como o ex-deputado Vladimir Palmeira e os economistas Luiz Gonzaga Beluzzo e José Luís Fiori.
Do outro lado, estarão estrelas do PT governista como os ministros José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (SP). Segundo um dirigente petista, ao ser informado do teor dos debates, Dirceu reagiu com preocupação:
¿- Vocês devem estar loucos. Isto é nitroglicerina.
Distanciamento das bases preocupa
Apesar da reação de Dirceu, a necessidade de resgatar valores históricos do PT tem o aval do governo federal. A decisão foi tomada em Brasília, na Granja do Torto, durante uma reunião da cúpula petista com o próprio presidente Lula.
Na reunião, ocorrida em dezembro, os cardeais do PT diagnosticaram um processo de distanciamento do partido de suas bases históricas, como intelectuais, artistas, classe média e movimentos sociais. O reflexo mais visível desse distanciamento foi a derrota de Marta Suplicy, que tentou se reeleger prefeita de São Paulo.
¿- Esse debate deveria ter sido feito antes do governo ¿ afirma Sílvio Pereira. ¿ Mas como não ocorreu, vamos fazer agora.
A idéia é elaborar teórica e politicamente as práticas adotadas pelo PT no governo e encontrar um discurso coerente para a eleição de 2006.
Os debates devem culminar com o processo de eleição direta (PED) ¿ no qual os cerca de 700 mil filiados do partido escolherão a nova direção, entre maio e setembro ¿ e o encontro nacional do PT, em dezembro. No encontro, o PT deve adaptar o defasado programa partidário à nova realidade.
¿ Temos que atualizar nosso projeto estratégico, teorizar e politizar a prática do partido. Isso significa reelaborar alguns pontos do programa sobre Estado e economia que estavam traduzidos em palavras de ordem. Agora, precisamos de propostas ¿ disse Genoino.
A economia e a política de alianças devem ser pontos altos do debate. A opinião de Genoino dá uma idéia clara do dilema weberiano petista:
¿ Não vejo argumentos que justifiquem o aumento constante das taxas de juros e a ata do Copom. De acordo com os interlocutores com quem tenho conversado, a taxa de juros está muito alta. Mas não cabe ao PT gerir metas. Isso é uma atribuição técnica do governo ¿ diz Genoino.
Temor de mudança `para inglês ver¿
Outro tema importante será a ética e o combate à corrupção.
¿- O PT tem que ter cuidado com a ética e com a transparência para que a cultura do jeitinho brasileiro não domine o partido ¿ diz Genoino.
Apesar de admitir a existência do dilema, Genoino nega que haja crise:
¿- Quando a gente chega ao poder os egos inflam, as aspirações se multiplicam e as disputas se radicalizam. Mas a vida humana é assim. O partido não tem a calmaria dos cemitérios. O que é importante é ter um grau de cumplicidade com o projeto estratégico que nos permita avançar sem guerra. Porque o fogo amigo é pior que o fogo inimigo. O fogo amigo queima mais porque está mais perto.
Apesar da aparente boa vontade, a cúpula petista terá que dar mais provas para convencer a ala radical do partido.
¿ Espero que tudo isso não seja só para inglês ver¿ disse o deputado Ivan Valente (SP).