Título: GOGÓ DE LULA
Autor:
Fonte: O Globo, 11/02/2005, Panorama Político, p. 2

Deputados e senadores governistas reclamam muito da indiferença do presidente Lula, que raramente se dispõe aos convescotes que tanto agradam aos políticos. Se ele empregasse 10% de sua simpatia na articulação parlamentar, queixam-se os líderes, as coisas seriam bem mais fáceis. Agora que elas estão bem difíceis, Lula começa a render-se a esta cultura da adulação.

Pretendia ele fazer um afago nos aliados antes de sancionar a Lei de Falências, informando-os dos vetos (e não-vetos) e agradecendo a aprovação do projeto que perambulou 11 anos entre as duas Casas. Mas com o carnaval, o prazo de sanção estourou na quarta-feira à noite e só ontem Lula pôde fazer isso. E ontem os governistas estavam com os nervos à flor da pele, diante dos riscos de um segundo turno na eleição interna da Câmara. Acabaram atendendo ao convite do presidente apenas o senador Edison Lobão, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relator na Câmara, Oswaldo Biolchi, e o líder do governo, Luizinho.

Se virar costume, é uma mudança de atitude que pode ajudar. Os retalhos da conversa mostram o que o presidente anda pensando de alguma coisas ¿ embora tenha evitado tratar das disputas entre aliados no Congresso. Alguém imagina Lula patrocinando um projeto que tem como co-autor Fernando Henrique Cardoso? Pois isso pode acontecer. Começou ele por agradecer o empenho de todos, dizendo não ter queixas do Congresso, que nunca deixou de aprovar os projetos urgentes ou importantes para seu governo. ¿Só não entendo¿, acrescentou, ¿por que alguns projetos levam tanto tempo para ser votados¿. Lobão explicou-lhe que, sem o empenho do Planalto, é difícil fazer um projeto andar. Ainda mais se for de iniciativa parlamentar. E falou do projeto que regulamenta a participação dos empregados no lucro das empresas, do qual é co-autor, juntamente com Fernando Henrique e Marco Maciel. Foi apresentado há 12 anos, fundindo três projetos individuais. Fernando Henrique virou presidente e algumas vezes pediu por ele, mas seu próprio governo tinha outras prioridades. Aprovado pelo Senado, o projeto dorme na Câmara, contou Lobão. Lula interessou-se por ele, pedindo a Luizinho que lhe mande uma cópia. Vai examiná-lo e, se for o caso, patrocinar sua votação.

No começo do encontro, chamou o vice José Alencar para sentar-se ao lado de Palocci. ¿Para vocês pararem de brigar por causa de juros.¿ Fez algumas considerações sobre o tema, sugerindo que há exagero nas queixas. As grandes empresas brasileiras nunca faturaram tanto, afirmou citando, entre outras, a Vale do Rio Doce e a Gerdau, mencionando o presidente desta última:

¿ O Jorge Gerdau vive reclamando de juros, mas lucrou mais que o Bradesco em 2004. As empresas brasileiras nunca estiveram tão saudáveis...

Ele mesmo desviou o assunto para a reforma tributária, que tem uma parte encalhada na Câmara. Disse preferir que os recursos do Fundo de Desenvolvimento Regional sejam destinados às agências de desenvolvimento, como a Adene (antiga Sudene) e a Ada (antiga Sudam). Os governadores, como se sabe, querem que sejam destinados aos estados. E foi este o acordo feito com eles na época da votação. Se Lula quis dizer que já bateu o martelo, pode esperar pela reação.