Título: PT, aos 25
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Fonte: O Globo, 09/02/2005, Panorama Político, p. 2
Saem as escolas, entra o PT na passarela, agora para celebrar os 25 anos de sua fundação. Numa entrevista marcada para amanhã em São Paulo, seu presidente, José Genoino, acompanhado de toda a executiva, falará da passagem e dos desafios da nova idade. Ele antecipa pelo menos um projeto que deve dar pano para mangas: a atualização do programa do partido.
Mais do que a idade, os dois anos de poder é que impõem ao PT a necessidade de alguns ajustes entre seu ontem, seu hoje e seu futuro. No governo, muito do que está escrito no programa e nos documentos do partido foi posto de lado. No governo, a exigência de respostas e atitudes é imediata, não se podendo esperar pelo debate interno no partido, instituição que anda em outro ritmo. Mas surgiram, com isso, contradições gritantes entre o PT-partido e o PT-governo, entre as teses de ontem e as práticas de hoje, que agora devem ser enfrentadas.
- Estes 25 anos exigem menos festa e muita reflexão. Serenidade e nada de salto alto. Devemos aproveitar o momento para discutir os novos rumos do partido. O PT não pode jamais perder sua tradição de partido popular nem suas conexões com o movimento social. Mas é preciso renovar seu ideário e isso exigirá mesmo algumas mudanças programáticas - diz Genoino.
Reconhece ele que alguns documentos do partido ficaram para trás, a exemplo da tese principal do congresso de 2001 em Recife, "A ruptura necessária". Boa parte dos temores em relação ao governo Lula, que resultaram nas instabilidades financeiras de 2002, quando sua vitória tornou-se iminente, decorre do que está escrito naquele documento. No meio da campanha, Lula lançou a Carta ao Povo Brasileiro, assumindo compromissos que seu governo vem honrando, tais como o respeito aos acordos e contratos do país e a preservação da estabilidade fiscal. Mas a Carta é um documento de campanha, jamais foi um documento do partido, como alega até hoje a esquerda partidária inconformada com os rumos tomados pela política econômica.
- Com a eleição de Lula e a consolidação do governo, o PT já cumpriu um dos objetivos de sua criação, há 25 anos. Mas agora precisamos de definições de médio prazo, para o futuro do partido, que não se esgota com o governo Lula - diz Genoino.
Ele cita, entre alguns conceitos que precisam ser revisados, a definição do papel do Estado - "nem mínimo, nem hipertrofiado e interventor" -, os modelos de desenvolvimento, de sociedade e de inserção do Brasil no cenário internacional.
No fundo, trata-se da social-democratização de um partido que, ao nascer, na reunião do Colégio Sion de 10 de fevereiro de 1980, ainda pregava o socialismo democrático. Tal ajuste não será um parto sem dor, haverá gemidos e ranger de dentes.
Genoino aponta também a necessidade de "conter o personalismo" no partido, citando Lula como exemplo de líder que nunca quis ser maior que o PT, sujeitando-se sempre às decisões da maioria. Muitas vezes, perdeu. Genoino recusa-se a dar exemplos de atitudes personalistas mas não é difícil deduzir que ele se refere, em primeiro lugar, ao candidato dissidente à presidência da Câmara, Virgílio Guimarães. Talvez ainda a Marta Suplicy, que apesar da derrota do ano passado, disputa a indicação para concorrer ao governo de São Paulo, embolando-se com outros dois postulantes, João Paulo e Aloizio Mercadante. Serviria ainda a Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza, que se candidatou atropelando a decisão do partido de apoiar a candidatura de Ignacio Arruda, do PC do B.
- Com a chegada ao governo, houve uma emergência de egos que agora precisa ser administrada - diz Genoino.
Administrar egos não é fácil em qualquer universo. Pior ainda num partido empenhado em conservar o poder conquistado.
Amanhã será lançado um site comemorativo, que contará a história dos 25 anos do PT através de textos, documentos e imagens. Nele haverá uma tribuna de debates, onde se poderá medir a temperatura interna. Será um retrato do partido quando jovem, na hora da razão.