Título: CONDOLEEZZA CONVIDA EUROPA A REFAZER ALIANÇA
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Fonte: O Globo, 09/02/2005, O Mundo, p. 21
Saint Germain-des-Prãs, bairro da esquerda intelectual e anti-Bush francesa, parou diante do cortejo de carros blindados e tropas de choque que o governo francês mobilizou para proteger a ilustre visitante: Condoleezza Rice, secretária de Estado americana. Foi ali, na prestigiosa Escola de Ciências Políticas, que Rice - encarnação do neoconservadorismo do governo Bush na mente dos franceses - convocou a França e os europeus a passarem a borracha nas divergências do passado e abrirem um "novo capítulo" nas relações para trabalharem juntos com os EUA na "defesa da liberdade no mundo".
No mais importante discurso de sua turnê européia, para cerca de 400 pessoas escolhidas pela embaixada americana, Rice foi direta:
- É tempo de superarmos os desacordos do passado. É tempo de abrir um novo capítulo nas nossas relações e na nossa aliança. A América ganha com uma Europa forte como parceira.
E acrescentou:
- Que cada um de nós coloque sobre a mesa idéias, sua experiência e seus recursos. Discutamos e decidamos juntos a melhor maneira de utilizá-los com o objetivo de promovermos mudanças democráticas.
'Não temos de aceitar o mundo do jeito que ele é'
A platéia aplaudiu calorosamente, seduzida pela mudança de tom. Há pouco mais de um ano, Condoleezza dizia que era preciso punir a França por sua oposição à intervenção americana no Iraque. Quebrando a imagem de uma mulher de ferro, ela se mostrou sorridente e mencionou duas vezes que adorava Paris.
Mas, gentilezas à parte, a mensagem foi que os EUA vão continuar lutando pela liberdade no mundo e os franceses não devem cruzar os braços diante das injustiças, sobretudo no Oriente Médio. A secretária lembrou o passado revolucionário de França e Estados Unidos, dizendo que os fundadores das duas nações se inspiraram no mesmo ideal. Ela disse que revoluções pela liberdade às vezes começam de forma mundana, mas são possíveis graças à "ajuda de fora". E num dado momento afirmou:
- Não temos que aceitar o mundo do jeito que ele é.
A palavra liberdade permeou todo o seu discurso, seguindo fielmente a linha do pronunciamento de posse de George W. Bush. Ela frisou que os grandes sucessos de americanos e europeus ocorreram quando ambos se recusaram "a aceitar o inaceitável status quo" e decidiram, em vez disso, lutar por valores.
'Não há conflito entre Islã e democracia'
Depois do discurso, Rice respondeu a perguntas do auditório. Quando um muçulmano francês quis saber se ela achava que algum país árabe hoje é democrático, Rice voltou a falar sobre a "ausência de liberdade" na região, e afirmou que os "árabes merecem um melhor futuro".
- Nós, no Ocidente, durante muitos anos fechamos os olhos para o déficit de liberdade (na região). Isto não pode ser o futuro do Oriente Médio - disse.
Um estudante quis saber como os americanos vão lidar com a maioria xiita no Iraque e a possibilidade de o país ter um regime fundamentalista islâmico. Ela se disse confiante em que os iraquianos serão capazes de formar um governo que leve em conta a pluralidade política e religiosa do país, e acrescentou:
- Temos que entender que não há nenhum conflito inerente entre Islã e democracia.
Condoleezza disse que ainda há "muito a fazer para criar um Iraque democrático", e novamente convocou os europeus a ajudarem. Sobre o Oriente Médio, ela disse que se tem hoje "a melhor chance de paz" dos últimos anos e que é preciso ajudar israelenses e palestinos a não perdê-la. Ela foi recebida pelo presidente Jacques Chirac no Palácio do Eliseu.