Título: PAI DE DOLLY CLONARÁ EMBRIÕES HUMANOS
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Fonte: O Globo, 09/02/2005, Ciência e Vida, p. 22
Os criadores da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado do mundo, obtiveram ontem da Autoridade Britânica de Fertilização Humana e Embriologia uma licença para clonar embriões humanos. A meta de Ian Wilmut, do Instituto Roslin, em Edimburgo, e de cientistas do Kings College, é a chamada clonagem terapêutica, isto é, a aplicação da clonagem para pesquisas médicas. Os cientistas querem usar os embriões para estudar doenças neurológicas causadoras de paralisia.
Eles esperam descobrir como essas doenças se desenvolvem e, dessa forma, encontrar um tratamento para elas. No grupo das moléstias neuromotoras está a esclerose lateral amiotrófica, ou doença de Lou Gehrig, que afeta milhares de pessoas no mundo e tem entre suas vítimas mais famosas o físico Stephen Hawking.
O grupo de Edimburgo é o segundo da Grã-Bretanha a obter autorização para clonar embriões humanos. Uma equipe da Universidade de Newcastle conseguiu em agosto licença para clonar embriões humanos e deles extrair células-tronco. O objetivo dessa pesquisa era buscar tratamentos para a diabetes e doenças neurodegenerativas, como o mal de Parkinson.
Mas enquanto a idéia do grupo de Newcastle era obter tecidos saudáveis para substituir os atingidos pelas doenças, o objetivo de Wilmut é diferente. O cientista pretende clonar embriões atingidos pela doença, a partir de pacientes que sofram da enfermidade.
Os cientistas pretendem extrair material genético de uma célula da pele ou do sangue de pacientes que sofram da forma hereditária das doenças neuromotoras e colocá-lo num óvulo, cujo núcleo tenha sido previamente removido.
Grã-Bretanha legalizou clonagem em 2001
O óvulo será estimulado a tornar-se um embrião de seis dias, a partir do qual os especialistas esperam obter células-tronco - as células mais primitivas do organismo, capazes de se transformar em todos os tecidos. Os cientistas vão compará-las com células saudáveis e com as já danificadas pela doença para entender melhor o mecanismo da enfermidade.
Segundo Wilmut e Christopher Shaw, do departamento de psiquiatria do Kings College, a partir das células dos embriões será possível entender como as doenças degenerativas se desenvolvem.
- Uma vez que tenhamos as células para o cultivo, as restantes serão destruídas - assegurou Wilmut, frisando que sua equipe não tem a intenção de produzir bebês clonados. - Isso não tem nada a ver com clonagem reprodutiva. As células embrionárias só serão usadas para investigar a doença dos neurônios motores.
Na análise de Shaw, a obtenção da licença é um "grande passo", já que os cientistas estudam essas doenças há vinte anos. Segundo os especialistas, as células podem também ser usadas para testar novas drogas contra as doenças pois será possível avaliar se os medicamentos são capazes de deter o avanço das enfermidades.
O Reino Unido foi o primeiro país a legalizar a clonagem terapêutica, em 2001. Este tipo de pesquisa enfrenta oposição por pressupor o sacrifício de embriões para coleta de células.
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TÉCNICA É POLÊMICA
Embora a legislação britânica proíba a clonagem reprodutiva - a criação de bebês clonados - é grande a oposição a pesquisas como a desenvolvida pelo grupo de cientistas criadores da ovelha Dolly.
Para Donald Bruce, do Projeto de Tecnologia da Igreja da Escócia, a não ser que haja uma proibição mundial, a clonagem será sempre uma ameaça.
- A ciência não tem fronteiras - afirmou.
Segundo o grupo de Ética em Reprodução, a "clonagem humana é perigosa, indesejada e desnecessária".
- Terapias alternativas e pesquisas com células-tronco adultas e do cordão umbilical oferecem soluções éticas nesse campo da medicina - afirmou uma porta-voz do grupo.
Julia Millington, da Aliança Pró-Vida, afirmou que a clonagem humana é um erro e deve ser proibida em todas as suas formas:
- A criação de embriões humanos clonados para experiências e sua subseqüente destruição é particularmente abominável - disse. - Damos boas-vindas a avanços que impeçam a progressão de doenças neuromotoras, mas não às custas de embriões humanos.