Título: Bodas de prata do PT
Autor:
Fonte: O Globo, 13/02/2005, O País, p. 8

Como a grande maioria dos casais que comemoram 25 anos de união (?) , o PT chega exausto às suas bodas de prata. Em lugar dos fogos da paixão, a cinza fria de uma convivência que, no melhor dos casos, é tolerância e amizade, e no mais comum, é conveniência ou cinismo. Em lugar da paixão das reformas, o amofinamento, o parasitismo dos cargos, a capitulação diante dos poderes econômicos antes demonizados, o acumpliciamento funcional com a desigualdade na forma das políticas compensatórias e ineficazes, o anti-republicanismo patrimonialista fazendo inveja mesmo a antigos campeões dessa praga brasileira.

Em lugar do partido mobilizador que, caucionado pelos movimentos sociais, entranhado nas dores da República, opôs-se aos desmandos de Collor e Fernando Henrique e na Constituinte que, por cegueira e bravatas ¿ a confissão é do próprio presidente ¿ não subscreveu, mesmo assim foi capaz de recolher assinaturas populares para algumas de suas melhores disposições; agora, um partido populista-autoritário que no Fórum Social Mundial 2005 pôs ¿macacos de auditório¿ uniformizados com súbitas camisetas ¿100% Lula¿, barrou gente que certamente não faria coro à aduladora unanimidade das platitudes do presidente, que receberá de volta, de braços abertos, os filhos pródigos do PT. Aos sons da Orquestra da Petrobras, dinheiro público para fins de marquetagem.

Como o eterno transformismo brasileiro pegou nesse partido renovador, cuja contribuição à redemocratização foi inegável, que nas duas últimas décadas do século XX negava o que parecia ser uma ¿lei de ferro¿ do declínio dos partidos de massa de base operária? Um conjunto amplo de determinações materiais e escolhas políticas, e até pessoais, ajuda a explicar a mais formidável, e perversa, conversão de um partido reformista a um agente da perpetuação do status quo na história política do Ocidente. Enquanto os partidos social-democratas e os antigos comunistas levaram até mais de um século para tornarem-se ¿partidos da ordem¿ não-reformistas, mas não necessariamente anti-reformistas ¿ o PSOE espanhol é mais do que secular, e o outrora farol da social-democracia mundial, o SPD alemão, completa 130 anos ¿ o PT ¿cometa¿ em 25 anos passou do zero ao infinito da degradação, renegando não só o reformismo programático da esquerda mundial, mas transformando-se num partido violentamente anti-reformista.

O partido se desmanchou enquanto programa reformista em parte pela avalanche combinada da globalização e desregulamentação promovidas acentuadamente nos últimos 15 anos. Esta combinação produziu uma profunda deterioração das bases sociais do PT, com a perda de milhares de postos de trabalho e a parcial liquidação das categorias de trabalhadores mais importantes na formação do partido; de outro lado, a liquidação do Estado desenvolvimentista, com as privatizações, mudou o caráter do Estado brasileiro, o qual constituía a base em que se assentaria o programa de reformas sociais do PT. Sobrou um programa pífio, remendos em sapato velho, o qual torna a pobreza funcional à acumulação capitalista. O PT não entendeu a mudança, pois já havia se burocratizado, e os meios tornam-se mais importantes que os fins. No caso dos partidos políticos dá-se a autonomia das lideranças e a verticalização hierárquica, em detrimento da capacidade das bases de influenciar as decisões partidárias.

Burocratização e mudança na estrutura social produziram a perda de hegemonia e o esgotamento das ¿energias utópicas¿, e ganhou relevo uma ¿nova classe¿, a dos administradores ou gestores de fundos de pensão, que constitui a outra metade da laranja formada com os economistas dublês de banqueiros que fazem a elite do PSDB. Chegando ao poder no vácuo da desestruturação das relações entre a economia e o sistema partidário, provocada pela turbulência da era FH, o PT seguiu a primeira regra burocrática que é a de manter-se no poder, e a perda da hegemonia obrigou-o a reproduzir o programa anterior, mesmo porque nem havia entendido a mudança, nem dispunha de bases sociais para um programa reformista.

Mas as determinações objetivas não bastam para esconder as escolhas feitas pelos dirigentes do PT. Daí o amplo arco de alianças, em nome da governabilidade, e que produz justamente o contrário. Junte-se a isso as escolhas pessoais: Lula já havia declarado, em entrevista à revista ¿Veja¿, em 1998, que estava cansado de ser famoso e pobre; queria ser anônimo e rico. Numa ausência de hegemonia, o caráter carismático da liderança conta muito: assim as idiossincrasias pessoais do líder, agora no poder, tornam-se orientações políticas; o que importa é o êxito individual. A ironia da história é: quantos milhões de miseráveis são necessários para o êxito de um Lula?

Os partidos tornam-se irrelevantes para a grande política; esta se decide em outras instâncias, fora dos controles democráticos e republicanos: o Banco Central é a principal delas. A economia engole o Estado e este a sociedade, e partidos e ONGs se transformam em simples agentes do Estado. Esta é a história contada com o reflexo mortiço desse metal funerário.