Título: O COFRE DO SAMBA NAS MÃOS DO BICHO
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Fonte: O Globo, 13/02/2005, Rio, p. 16
A ordem de classificação das escolas do Grupo Especial não altera o produto: a grande vencedora do carnaval carioca nos últimos anos tem sido a cúpula do jogo do bicho. Encastelada no comando da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), ela exerce controle absoluto sobre a maior e mais milionária festa popular do país. A estimativa é que este ano ela tenha um faturamento próximo dos R$70 milhões, dinheiro que deveria custear a montagem da Sapucaí e ser repassado para as escolas. Por força de um contrato, as agremiações ficam com a menor parte do milionário bolo, enquanto o que cabe à Liga cresce a cada ano, com o beneplácito da prefeitura, que paga contas da Sapucaí, mas tem um déficit de quase R$10 milhões.
Solidamente plantada em quatro andares de um prédio da Avenida Rio Branco, no Centro, depois de começar há 21 anos numa pequena sala, a Liesa vive uma realidade bem diferente das escolas, que passam o ano de pires na mão em busca de patrocínio ou fragilizadas por disputas fratricidas, como as iniciadas em 2004 na Mocidade, no Salgueiro, no Império Serrano, na Tradição e na Caprichosos. O poder da Liesa dá aos bicheiros uma visibilidade social que ofusca os anos passados na cadeia entre 1993 e 1995, após terem sido condenados por formação de quadrilha.
Dona da festa, a liga divide as fatias do bolo e tem se esmerado em abocanhar a melhor parte. Nos contratos de administração do Sambódromo, a prefeitura ¿ que abdicou da administração da festa em 1995 em favor dos contraventores ¿ vem reduzindo sua parte no percentual sobre a venda dos ingressos em favor da Liesa ano a ano. Em 2005, a liga recebeu 30% do faturamento com a venda de ingressos e camarotes e mais 2,6% de taxa de administração do contrato. Em 1996, o percentual total da liga era de 25%. Já a parte das escolas não sofreu variação e está em 50,3%.
Cesar quer escolas com autonomia
Cada uma das 14 escolas de samba do Grupo Especial recebeu, em média, R$2 milhões este ano da Liesa, totalizando R$28 milhões. Deste total, R$15,5 milhões corresponderam à venda dos ingressos e R$5,6 milhões ao subsídio concedido pela prefeitura e repassado pela Liesa. Pelo contrato de direito de transmissão pela TV Globo, a liga recebeu em 2004 cerca de R$8,4 milhões ¿ o contrato foi reajustado em pelo menos 20% este ano, devendo chegar a R$10 milhões. Portanto, só os recursos dos ingressos, da prefeitura e da TV já cobririam, com sobra, o que a Liesa repassou às escolas.
Em reais, a receita da Liesa triplicou só com a venda de ingressos, se comparada à de dez anos atrás. Em 1996, esta arrecadação foi de R$15 milhões, dos quais 25% (R$3,7 milhões) foram destinados à Liga. Com os aumentos que incidiram sobre o preços, especialmente no filão de ouro que se tornaram os camarotes, a previsão é que a arrecadação chegue a R$34 milhões ¿ sendo R$9,5 milhões destinados exclusivamente à montagem das cadeiras, frisas, contratação de som e jurados, entre outras despesas ¿ sem que o Sambódromo tenha sofrido alterações significativas desde que ganhou frisas, em 1995.
O dinheiro entra para a liga, mas muitas despesas quem paga é o contribuinte. A prefeitura dá R$14,5 milhões à Liesa (inclusive os R$3,5 milhões de incentivo às escolas dos grupos A e B, que são repassados pela liga) e recebe apenas 7% do faturamento com a venda dos ingressos e o ISS dos contratos da Sapucaí, aproximadamente R$5,7 milhões.
Além disso, a prefeitura continua bancando as contas de luz, gás e água e a fazer a limpeza da passarela e o seguro patrimonial, manter as subestações elétrica e hidráulica, organizar o trânsito e garantir o atendimento médico e o plantão da Defesa Civil. Só a conta de água do Sambódromo custa algo em torno de R$70 mil no mês do carnaval. O prefeito Cesar Maia avalia em R$1 milhão estas despesas. E o déficit entre o que recebe (incluindo o ISS dos contratos) é de quase R$10 milhões.
Segundo Cesar, os gastos assumidos da principal festa da cidade são intransferíveis e a prefeitura está chegando ao ideal de não colocar dinheiro na festa e tornar as escolas independentes financeiramente. Segundo ele, o dinheiro tem as escolas como destino, com a taxa de administração natural da liga. Cesar lembrou que as regras da distribuição são combinadas pelo conselho pleno da Liesa, que reúne todas as escolas.
¿ A autonomia financeira (das escolas) hoje existe, isso é inequívoco ¿ disse o prefeito.
Em entrevista semana passada a um programa de TV, o presidente da Liesa, Ailton Guimarães Jorge, o capitão Guimarães, disse que este ano gastaria entre R$13 milhões e R$14 milhões no carnaval. E contou com muito apoio para isso. A Liesa tem o direito de conceder áreas do Sambódromo para a publicidade e a exploração comercial. É um filão que se torna mais disputado a cada ano.
¿ A Sapucaí é um lugar único porque reúne desde os formadores de opinião até o público consumidor de mais baixa renda. Isto não se encontra em qualquer lugar. Por isso as empresas investem tanto nessa festa ¿ diz o publicitário Marcelo Gorodicht, sócio da MG Comunicação, que já cuidou de contas na avenida mas não revela valores.
Neste negócio o sigilo é absoluto: nem a liga nem as empresas podem, por contrato, revelar valores. Pessoas ligadas à área de marketing avaliam que esta concessões geram uma receita de pelo menos R$10 milhões.
¿ A Sapucaí é um lugar que permite um trabalho fantástico de estreitar o relacionamento com clientes, parceiros e fornecedores ¿ diz Felipe Barauhna, diretor de marketing promocional e eventos da Vivo, que teve um camarote na festa, mas também não revela números.
Este ano a festa teve pelo menos seis empresas patrocinadoras. Uma delas bancou a montagem das novas arquibancadas do Canal do Mangue e dentro da Sapucaí. Além da publicidade, a Liesa cobra de empresas que montam negócios no Sambódromo e pela exclusividade da venda de produtos como cervejas, refrigerantes e sanduíches. A previsão da marca de cerveja exclusiva do Sambódromo era vender 500 mil latinhas nos cinco dias de folia.
A Liesa foi procurada na quinta-feira, mas alegou estar envolvida na organização do Desfile das Campeães e que não falaria sobre o assunto.