Título: INTEGRAÇÃO TARDIA
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Fonte: O Globo, 13/02/2005, O Mundo, p. 36

Sessenta anos depois da libertação de Auschwitz, a Alemanha vai construir em Berlim um memorial em homenagem a centenas de milhares de ciganos assassinados nos campos de concentração nazistas. A decisão de construção do memorial, um projeto do artista israelense Dani Karavan, é o primeiro passo no reconhecimento do papel de vítima dos ciganos ¿ que se autodenominam sintis e romas ¿ durante a ditadura nazista e marca também uma tentativa de pôr fim à discriminação dessa minoria em toda a Europa, como disse Romani Rose, presidente da Associação dos Ciganos da Alemanha.

Para isso poderá contribuir a iniciativa dos governos de oito países do antigo bloco comunista, que divulgaram recentemente em Sófia, na Bulgária, um comunicado sobre a Década de Integração dos Ciganos, que até 2015 deverão ter saído da marginalidade na qual vivem hoje.

A meta é ambiciosa. Mesmo na rica Alemanha, cerca de 50% dos 70 mil ciganos no país não vão à escola e vivem na pobreza e no desemprego, como a camada mais baixa da sociedade. Para ajudar a minoria, o escritor Günter Grass utilizou o dinheiro do Prêmio Nobel de Literatura que ganhou em 1999 para a criação de uma ONG de apoio aos ciganos europeus. Mas é, segundo Grass, na Europa Oriental que os ciganos vivem mais discriminados e inteiramente à margem da sociedade. Na Bulgária, na Albânia ou na Romênia, a situação dos ciganos é sempre a mesma: vivem em bairros pobres, sendo que sofrem da discriminação étnica, além da social.

As metas da Década de Integração são vistas com ceticismo por representantes de organizações ciganas por serem consideradas ambiciosas, mas contam com recursos do Banco Mundial e do bilionário americano de ascendência húngara George Soros. Em dezembro do ano passado, ele criou a Fundação de Educação dos Romas, com recursos de US$42 milhões para investir em projetos de ajuda à minoria.

Regimes comunistas protegiam minoria

Poucas etnias lamentam tanto o fim do comunismo na Europa Oriental quanto os ciganos, que antigamente eram protegidos pelo Estado e desde 1989 estão abandonados ao seu próprio destino no novo sistema capitalista. Livia Jaroka, deputada no Parlamento Europeu e uma das poucas ciganas da Hungria a conseguirem fazer carreira na política, diz que seu povo já era discriminado durante o regime comunista, mas a situação econômica piorou muito nos últimos 15 anos. Com a privatização das estatais, os ciganos foram os primeiros a serem demitidos como os ¿menos qualificados¿.

Um dos exemplos mais chocantes da discriminação dos ciganos foi oferecido pela cidade tcheca Ust Nad Labern, que mandou construir um muro para ¿proteger¿ a população de etnia tcheca da minoria cigana, que acusava de tendência à criminalidade, causando uma onda interminável de protestos em todo o continente. Para não prejudicar o ingresso da República Tcheca na União Européia, o muro foi demolido, mas segundo a Sociedade dos Povos Ameaçados, de Göttingen, na Alemanha, a situação não melhorou. Com a pressão exercida para que países como a República Tcheca, Hungria ou Eslováquia tivessem um orçamento financeiro equilibrado, os cortes no setor social resultaram em uma redução das chances de educação da minoria.

Em maio do ano passado, foi realizada uma primeira conferência internacional sobre o tema, em Budapeste. Desde o nazismo, a palavra cigano em alemão (zigeuner) é evitada por ser uma espécie de estigma e não ser politicamente correta. Eles são chamados agora oficialmente como sempre se denominaram, de sintis e romas. Roma vem da palavra rom, que em sânscrito, o idioma da região da Índia de onde os ciganos saíram entre os séculos VIII e XII para emigrar para diversos países da Europa, significa ser humano. Os que emigraram para a Europa Ocidental eram chamados de sintis.

Segundo Florin Cioba, da União Romani, uma associação que reúne ciganos de toda a Europa sediada em Bucareste, na Romênia, só com um trabalho intenso de esclarecimento no mundo inteiro é possível ¿acabar com a imagem negativa dos ciganos e assim melhorar as suas chances na sociedade onde vivem¿. Na Hungria, na Bulgária, na República Tcheca e na Eslováquia a situação é um pouco melhor do que nos demais países da Europa Oriental, mas a minoria cigana vive assim mesmo à margem da sociedade.

O capítulo mais longo de uma perseguição étnica na História deixou marcas insuperáveis para os integrantes da minoria, com repercussão até na semântica. Mesmo contra a própria lógica, os ciganos alemães recusam o uso da palavra cigano no memorial que será construído em Berlim. Eles exigem que a frase programada para o monumento ¿ ¿em memória aos ciganos assassinados na Europa¿ ¿ seja trocada por em memória aos sintis e romas assassinados na Europa.