Título: FRANÇA REVIVE ERA MITTERRAND, 9 ANOS APÓS SUA MORTE
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Fonte: O Globo, 13/02/2005, O Mundo, p. 39

Nove anos depois de sua morte, em janeiro de 1996, a sombra do ex-presidente socialista da França François Mitterrand continua pairando sobre o país. Desta vez, alimentada pelo escândalo. Paris se prepara para encerrar, este mês, o seu ¿Eliseu gate¿ ¿- um processo sobre o enorme esquema de espionagem que Mitterrand montou ilegalmente dentro do Palácio do Eliseu. O processo mostra até que ponto o então presidente usou e abusou do poder para controlar políticos, escritores e celebridades.

Na próxima semana, Mitterrand vai estar novamente sob foco. O cineasta Robert Guédiguian vai lançar um filme polêmico sobre os últimos anos de vida do ex-presidente, chamado ¿Promeneur du Champ-de-Mars¿. Mitterrand morreu de câncer. Agora até Mazarine Pingeot, a filha que ele teve fora do casamento, com uma de suas muitas amantes, vai publicar nas próximas semanas um livro contando seus encontros secretos com o pai. Durante anos, sua identidade foi escondida do público.

Mas, por enquanto, é o processo de espionagem que mais capta a atenção dos franceses. Inicialmente criado em 1982 para combater o terrorismo, o grupo de espionagem do Palácio do Eliseu se transformou num poderoso serviço secreto a serviço do presidente. A unidade de escuta telefônica funcionava num bunker debaixo do túmulo de Napoleão, um dos grandes monumentos históricos de Paris. Pierre Charroy, 69 anos, hoje general aposentado, que comandou durante 16 anos o GIC ¿ grupo encarregado das escutas ¿ revelou que a rede chegou a mobilizar 400 policiais secretos.

Charroy é hoje um dos 12 homens processados no escândalo, chamado pelos franceses de Eliseugate, numa alusão ao escândalo Watergate que derrubou o presidente americano Richard Nixon. A diferença é que Mitterrand morreu em 96, depois das primeiras revelações do esquema de espionagem pelos jornais, sem ter dado satisfações ao público ou ao tribunal. Os homens que comandavam o esquema se comparavam aos ¿três mosqueteiros¿ dos tempos do rei Luis XIII.