Título: LIÇÃO E ALERTA
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Fonte: O Globo, 16/02/2005, Opinião, p. 6

A vitória do deputado do PP pernambucano Severino Cavalcanti na disputa pela presidência da Câmara é mais do que uma derrota histórica do governo do PT no jogo político de Brasília. Azarão declarado num tipo de eleição em que o Palácio do Planalto quase sempre sai vitorioso, Cavalcanti simboliza as piores e mais impopulares facetas do homem público. Conhecido líder do que se convencionou chamar de baixo clero, agrupamento de parlamentares conduzido à base de tenebrosas barganhas, Severino Cavalcanti soube aproveitar-se dos graves erros cometidos pela cúpula do governo e pelo comando do PT na condução da substituição de João Paulo Cunha.

A arrogância e a empáfia que costumam desenvolver-se nas altas esferas do poder são a única explicação plausível para o fato de o comando político do governo ter resolvido mudar as regras estabelecidas para a escolha do candidato oficial quando o jogo já havia começado. Suspender a consulta à bancada depois do primeiro escrutínio, do qual saíra vencedor Virgílio Guimarães, para impor o nome do último colocado, Luiz Eduardo Greenhalgh, foi no mínimo uma demonstração autista de excesso de confiança.

A desastrada intervenção de cima foi a senha para a multiplicação de candidaturas, incluindo a do próprio Virgílio. E mais uma vez o PT foi obrigado a provar do próprio veneno que destilou no passado oposicionista, quando lançava candidatos avulsos por se recusar a seguir a regra do respeito à proporcionalidade das bancadas na escolha do presidente da Casa.

O resultado irônico da inabilidade petista foi o partido amargar a derrota para um candidato avulso. E não um candidato qualquer. Severino Cavalcanti, coerente com a biografia, fez uma campanha lastreada em promessas de mais benesses para os deputados, sem demonstrar qualquer preocupação com o contribuinte. Com o deputado pernambucano, voltam a conquistar espaço na Câmara personagens ligados a alguns dos piores momentos vividos pela classe política. A vitória de Severino Cavalcanti é de lavar a alma dos anões do Orçamento. Não há registro na História recente de uma situação como essa, em que o comando da Câmara ganha autonomia e pode agir a partir de interesses preponderantemente corporativistas e fisiológicos.

O prioritário, agora, para as lideranças políticas da oposição e situação é tratar de preservar algum espaço para negociações em alto nível. Dos escombros da madrugada de ontem é preciso construir a possibilidade de se dar sequência às reformas, de se trabalhar naquilo que o país necessita - na redução da carga tributária, em mais segurança institucional aos investimentos, etc. Como em 2003, tucanos e pefelistas precisarão reduzir a distância dos políticos mais sensatos do PT.

De tudo o que aconteceu nessa eleição na Câmara, com destaque para o balcão de troca de partidos que funcionou despudoradamente nos últimos dias, resta mais um alerta a favor da reforma política destinada a fortalecer as legendas. Quando os partidos são débeis, qualquer um pode ser o segundo na linha sucessória da República.