Título: 'VI UM MORRER. ESTAVA DEITADO. A CADA TIRO, O CORPO DAVA UM PULINHO'
Autor: Bernardo de la Peña/Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 17/02/2005, O País, p. 3

Um dos feridos ontem na desocupação da área invadida no Parque Oeste Industrial, em Goiânia, disse que foi atingido por um tiro na mão depois de já estar deitado no chão e cercado por policiais militares. Atendido no Hospital de Urgências de Goiânia, o vendedor autônomo Edgar Luiz Pereira, de 58 anos, contou ter visto outro homem já dominado ser morto a tiros próximo de onde estava.

- Vi um morrer. Ele estava deitado. A cada tiro que levava, o corpo dava um pulinho - disse Pereira ao GLOBO, enquanto era atendido no Hospital de Urgências de Goiânia.

O vendedor contou que, ao perceber a chegada da PM, tentou fugir, mas sem sucesso.

- Entrou PM por todo lado. Não tinha para onde correr. Deitei no chão. Aí me disseram: 'Não levanta a cabeça'. Ouvi o barulho e senti o ardido na mão. Fui olhar e pisaram na minha cabeça. Aí fui algemado - disse Edgar.

Ele contou ter ido morar na área invadida em maio, quando teve início a maior ocupação urbana de Goiânia. Edgar contou que ficou num barraco de lona por causa das promessas dos candidatos a prefeito na campanha eleitoral.

- O prefeito Íris (Rezende, do PMDB, eleito em outubro de 2004) falou num comício que, se ganhasse, a gente ia ficar lá. Todo mundo votou nele. E aí fui ficando - contou Pereira, lembrando que, antes, morava de aluguel e que deixou a casa alugada porque devia R$1.700 e seria despejado.

A procuradora-geral de Justiça de Goiás, Laura Maria, disse que todos os candidatos a prefeito de Goiânia, inclusive o ex-prefeito e candidato derrotado à reeleição, Pedro Wilson, do PT, acenaram com promessas de regularizar a situação das famílias invasoras. Antes mesmo da desocupação de ontem, o Ministério Público Estadual já investigava eventual omissão das autoridades em relação ao caso, uma vez que a reintegração de posse foi determinada pela Justiça em setembro, durante a campanha eleitoral, e foi adiada até ontem.

O secretário de Segurança Pública e Justiça de Goiás, Jônathas da Silva, disse que a desocupação foi adiada a pedido tanto de Pedro Wilson quanto do governo estadual de Goiás, que buscavam uma solução negociada. Segundo ele, foi tentado até mesmo um contato com os proprietários do local, que não cederam.