Título: Mortes também na cidade
Autor: Bernardo de la Peña/Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 17/02/2005, O País, p. 3

Uma ação da Polícia Militar para desocupar uma área invadida por sem-teto em Goiânia resultou ontem na morte de dois moradores atingidos por arma de fogo e deixou pelo menos 29 feridos, sendo 11 policiais e 18 sem-teto. Na operação, a PM, que mobilizou 2.500 homens, chegou a prender 800 sem-teto, que foram levados a um quartel para identificação. Boa parte deles foi liberada ao longo do dia. O Ministério Público Estadual investiga se houve abuso por parte da polícia e diz que o desfecho com mortes era previsível, uma vez que as famílias já haviam avisado que não deixariam o local. Por isso mesmo, defendia mais negociação. A PM afirmou, porém, que agiu corretamente e sem abusos.

A PM cumpriu ordem de reintegração de posse determinada pela Justiça estadual em setembro de 2004. A área invadida desde maio tinha 1,2 milhão de metros quadrados, e nela viviam cerca de 3 mil famílias, segundo o secretário de Segurança Pública e Justiça de Goiás, Jônathas Silva.

Sem-teto resistiram com barricadas

A operação começou de manhã. Às 8h, as vias de acesso ao Parque Oeste Industrial, na capital goiana, foram interditadas, inclusive a BR-060. Entre os 2.500 policiais estavam soldados da tropa de choque e da cavalaria. Os sem-teto resistiram com barricadas e atearam fogo a pneus, além de lançar pedras e pedaços de paus. Segundo a PM, houve disparos e foram atirados coquetéis molotov nos policiais.

- Sabia do risco de tirar milhares de pessoas de uma área daquele tamanho. Por isso, tentamos todo tipo de negociação. A operação poderia ter sido evitada se não tivesse havido a politização do caso e todas as propostas fossem rechaçadas. Já que não foi possível uma solução amigável, tivemos que correr o risco. Vamos apurar tudo aquilo que houve, se houve, de excesso e abuso de autoridade - disse Jônathas Silva.

A Justiça de Goiás havia expedido mandado de prisão contra 23 líderes dos sem-teto, acusados de formação de quadrilha e estelionato por causa de denúncias de venda de lotes na área invadida. Uma delegacia provisória da Polícia Civil foi instalada no 7º Batalhão da PM e, dos 800 detidos no início da operação, 140 moradores foram autuados em flagrante por resistência e agressão aos policiais. O principal líder do movimento, Américo Rodrigues de Novaes, foi preso.

A procuradora-geral de Justiça de Goiás, Laura Maria Ferreira Bueno, disse que as mortes poderiam ter sido evitadas.

- Para o Ministério Público, poderia ter havido mais negociação e a busca de solução pacífica para o problema. Diante do que vinha ocorrendo nos últimos dias, as mortes eram previsíveis. E nada justifica uma morte nesse caso - disse Laura.

O Ministério Público mobilizou promotores em diversos locais da cidade, entre eles o Hospital de Urgências de Goiânia, para onde foram levados pelo menos 16 dos moradores feridos, dos quais 11 por arma de fogo, incluindo aí os dois mortos: Wagner da Silva Moreira e Pedro Nascimento, que foram atingidos no tórax e abdômen. Pelo menos um deles chegou ainda vivo ao hospital. Os demais feridos a bala foram alvejados nos braços, mãos, ombros ou receberam tiros de raspão.

Operação foi um sucesso, diz PM

O diretor do hospital, Luciano Alves Sardinha, não soube dizer o calibre das balas que mataram os dois. Outros três chegaram em estado grave, foram operados e não corriam risco de vida no fim da tarde.

O assessor de Comunicação Social da PM, tenente-coronel Carlos Antonio Elias, disse que a operação foi um sucesso e que pelo menos um dos feridos a bala teria sido atingido pelos próprios invasores. No local, foram apreendidas 19 armas de fogo, entre elas revólveres calibre 38 e 32, além de espingardas calibre 12 e 22.

Elias afirmou que, no local onde houve as duas mortes, os policiais não portavam arma de fogo com munição real, só balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito sonoro. Mas admitiu, porém, que 10% dos policiais usavam munição real para arma de fogo.

- A PM foi recebida com resistência e todo tipo de agressão, desde armas de fogo e coquetéis molotov até pedras e pedaços de pau. A PM cumpriu o papel dela. Desordem , baderna e poder paralelo não podem ser permitidos. A ação foi um sucesso - disse o tenente-coronel Elias.

A desocupação só terminou por volta de 11h30m. Assim que soube das mortes em Goiânia, o secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, foi para a cidade. Visitou o quartel da PM e conversou com autoridades locais e representantes dos sem-teto. Ele disse que a ação da PM estava bem planejada, mas questionou o empenho da polícia em apurar as mortes. Segundo Nilmário, as pessoas morreram pela manhã e até às 16h, quando foi ao local, não havia sido feita perícia. O secretário contou que perguntou a oficiais onde teriam ocorrido as mortes e eles disseram não saber.

- Isso não é verossímil uma vez que um dos mortos foi atingido na aorta e morreu no local. Se tiraram um deles com morte instantânea, como podem não saber onde morreu?