Título: SUTIL E TRUCULENTO, AS DUAS FACES DO NOVO CZAR
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 18/02/2005, O Mundo, p. 28
Ele tem fala mansa, é sutil, prefere manobrar nas sombras e se sente à vontade manejando segredos. É um excelente jogador de pôquer e domina cinco idiomas - inglês, francês, espanhol, grego e vietnamita - como um nativo. E tem fama de hábil negociador, com nervos de aço e tato de veludo.
Um diplomata perfeito, garantem seus colegas:
- Ele é delicado, entende ambigüidade - disse Richard Holbrooke, ex-embaixador dos EUA na ONU, que conhece Negroponte desde os anos 60, quando ele iniciava uma carreira que até aqui lhe deu postos em oito países em três continentes, além dos cargos de secretário de Estado Assistente (1985-1987) e subchefe do Conselho de Segurança Nacional (1987-1989).
Há, no entanto, um outro Negroponte: duro, frio, truculento, na versão dos que não têm simpatia por sua figura e, em especial, por suas ações - ainda que a serviço dos presidentes a quem serviu. A mais recente aconteceu quando ele era embaixador na ONU, na época da invasão do Iraque, em 2003.
A sua "cruel persistência" - na definição de diplomatas que ali trabalham - teria sido responsável pela destituição dos embaixadores do México e do Chile naquele organismo, depois que esses dois países foram contra a argumentação dos EUA para iniciar a guerra contra o Iraque. Negroponte pressionou tanto o governo daqueles países que eles substituíram os diplomatas e iniciaram um amistoso processo de reaproximação com a Casa Branca.
- Há duas correntes de pensamento sobre John Negroponte. Uma diz que ele é um ilustre diplomata de carreira. A outra, que ele é um crápula, um insolente, um inescrupuloso da pior espécie - disse Larry Birns, diretor do Council on Hemispheric Affairs, centro de estudos políticos baseado em Washington.
John Dimitri Negroponte nasceu em Londres, filho de um magnata grego do setor de navegação que, depois da Segunda Guerra Mundial, instalou-se nos Estados Unidos. Logo depois de ser aprovado nos exames do Departamento de Estado, ele foi mandado para Hong Kong com a tarefa de observar a China, país então fechado aos EUA. Sua tarefa era de inteligência: conversar com os refugiados do continente.
Em seguida Negroponte foi transferido para Saigon, com a incumbência de fazer conexões políticas com o Vietnã do Sul. Trabalhou tão bem que nos anos 70 o então secretário de Estado, Henry Kissinger, o levou para Paris, para assessorá-lo nas negociações de paz com o Vietnã do Norte. Equador, Grécia, Honduras, México e Filipinas surgiram em seguida em seu roteiro diplomático.
Para a angústia de Negroponte, apesar de ele ter participado de eventos tão variados quanto importantes, a sua carreira acabou sendo marcada publicamente pela época em que esteve em Honduras:
- Dos meus anos de carreira, passei três e meio em Honduras. É apenas uma pequena parte, mas só se referem à ela - queixou-se ele recentemente, acrescentando que dessa época ninguém destaca o fato de ele ter cinco filhos, sendo todos eles crianças abandonadas hondurenhas que adotou.