Título: Estado de sítio nas favelas
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Fonte: O Globo, 20/02/2005, Rio, p. 18

Vinte anos depois do fim do regime militar, existem cariocas vivendo sob uma outra ditadura: a do tráfico de drogas. Uma pesquisa inédita feita pelo Disque-Denúncia detalhou as principais agressões sofridas por moradores e vizinhos de favelas. Foram 18.287 denúncias sobre nove temas, recebidas ao longo de 2004 e em janeiro deste ano, 46 em média por dia. As denúncias confirmam que o tráfico passou de protetor das comunidades a algoz. Quase dez mil delas informam sobre a existência de paióis do tráfico e de armas escondidas em associações e casas de moradores e até em igrejas. Em seguida no ranking das maiores reclamações, vêm o emprego de menores no tráfico de drogas e os bailes funk. E, em relação a 2003, no ano passado o número de telefonemas para o Disque-Denúncia sobre os itens analisados cresceu 9,6%. O agravamento da situação levou o estado a agir. Nos últimos 21 dias foram deflagradas duas operações conjuntas do plano proposto pela Secretaria de Segurança Pública ao governo federal.

A cobrança de ágio na distribuição de botijões de gás, o desvio de rotas de Kombis e vans para fazer ¿bondes¿ para o transporte de drogas e armas, a imposição de luto e o toque de recolher são também objetos de denúncias. Sem falar na obrigatoriedade de doação de cestas básicas para bandidos. E ainda na depredação de orelhões ou utilização de telefones públicos para a venda de drogas.

Doméstica fica duas semanas em casa

A empregada doméstica de Pérola Aqeerman, consultora de empresas e membro do movimento Basta ¿ pelo fim da violência ¿ mora no Vidigal e, em janeiro, ficou duas semanas sem sair de casa para não deixar os dois filhos sozinhos em meio aos constantes tiroteios entre facções rivais e com a polícia. Pérola recomendou à empregada que ficasse em casa e precisou contratar uma diarista, que mora numa favela do Complexo da Maré, em Bonsucesso. Dela, soube de outra mazela sofrida por quem vive em comunidades pobres dominadas por traficantes: os bandidos estabeleceram um toque de recolher na comunidade. Antes da retomada das aulas, chegaram a fixar 15h como o horário para os moradores, especialmente as crianças, irem para as suas residências.

¿ Os três níveis de governo (federal, estadual e municipal) tinham de se unir em ações conjuntas para acabar com esse poder paralelo, que deixa as pessoas reféns do tráfico. Têm que parar com briguinhas políticas e cada um fazer a sua parte, aproveitando que, agora, os moradores dessas localidades estão se mobilizando para denunciar ¿ afirma Pérola, referindo-se à reportagem do GLOBO publicada dia 22 de janeiro, que mostra que 880 armas foram apreendidas em favelas em 2004 com base em informações passadas ao Disque-Denúncia

Gás: ágio chega a R$7 por botijão

Uma das 82 denúncias sobre horários fixados por bandidos para os moradores de favelas entrarem em casa, feita dia 4 de janeiro e que consta do relatório do Disque-Denúncia, diz que ¿os chefes do tráfico estão aterrorizando os moradores, impondo toque de recolher, colocando interruptores nos postes de luz para que, a certa hora, as ruas fiquem às escuras¿. E acrescenta: ¿Se alguém fica observando a movimentação, eles atiram contra as residências¿.

¿ Os moradores de favelas estão sempre submetidos a regimes tirânicos, como horários para andar nas ruas. Esse toque de recolher às 15h é demais. Aliás, o toque de recolher é um absurdo. Mas existe. De fato, os traficantes controlam as áreas ¿ constata o sociólogo Ignácio Cano, membro do Laboratório de Análises da Violência da Uerj. ¿ Não adianta o bandido atuar no campo social. Ele deixa os moradores da favela mais vulneráveis. A comunidade fica refém do tráfico.

Outra denúncia sobre toque de recolher num morro do Rio dá conta de que naquele lugar ¿os traficantes fazem blitzes no interior da favela e quem é apanhado fora de casa é humilhado e quase sempre agredido¿. Em outra favela, somente mulheres podem circular livremente. Em mais uma comunidade também apenas as mulheres têm permissão dos bandidos para entrar em casa depois do toque de recolher: seus acompanhantes são mandados embora, só podendo retornar ao amanhecer.

A pesquisa mostra ainda que houve telefonemas informando que bandidos utilizam até igrejas para esconder as armas. A Arquidiocese do Rio diz que a Igreja só vai se manifestar sobre o assunto após a publicação da reportagem.

As denúncias sobre a máfia do gás, que cobra ágio na venda de botijões, tiveram o maior aumento percentual de 2003 para 2004: 268%. Já aquelas que informaram sobre esconderijos de armas cresceram 26% no mesmo período, e as referentes a bailes funk, 21%. Foram 479 telefonemas ano passado sobre a máfia do gás, sendo 35 deles confirmados pela polícia. Em 2003, os traficantes cobravam até R$2 a mais no preço do botijão, que varia conforme a localidade. No ano passado, segundo denúncias, o ágio subiu para R$7.

Quinze telefonemas relatando a ordem de fechamento do comércio em favelas e ruas próximas foram confirmados. Outro dado assustador revelado na pesquisa diz respeito ao envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico. Um telefonema alerta que, em certa favela, há meninos entre 7 e 9 anos trabalhando para traficantes. A maioria começa nessa atividade embalando drogas ou transportando-as. Em outros casos, os menores são aliciados para serem ¿olheiros¿ (vigias). Uma denúncia dá contra de que crianças e adolescentes estão usando cavalos para percorrer uma favela, a fim de avistar a invasão de grupos rivais ou a chegada da polícia.

¿ A população vive entre a tirania do tráfico e o despotismo da polícia. Os dois lados são autoritários, mas as agressões do tráfico são previsíveis. Do lado da polícia, as regras nem sempre são claras. O levantamento do Disque-Denúncia mostra que, na ponta da linha, está a falta de políticas públicas nas comunidades. Não só em estrutura, mas também na questão da segurança de fato, dos serviços, comércio ¿ analisa a socióloga Luciane Patrício, que cursa mestrado em antropologia na Universidade Federal Fluminense e elabora tese sobre o Disque-Denúncia.