Título: JOVENS CARENTES QUE ESTUDAM, TRABALHAM E VISITAM MUSEUS
Autor:
Fonte: O Globo, 20/02/2005, Economia, p. 38
Gente que trabalha, estuda, vai a museus, bailes funks e pagodes, gosta de ler jornais e sofre mais com a violência policial do que com a urbana. Esse perfil identifica a população de 10 a 21 anos residente do bairro do Caju, na Zona Portuária do Rio. Um universo de 5.308 jovens foi alvo de uma pesquisa inédita, coordenada pelo Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets) em outubro de 2003 e divulgada agora.
O levantamento constatou que trabalhar é uma realidade bastante presente na vida dos jovens das oito favelas do Caju: 24% deles trabalham e entre a população de 10 a 14 anos o percentual é de 8,5%, altíssimo se comparado com as crianças do asfalto no Rio. Nessa outra realidade urbana, a taxa despenca para 1,4%:
¿ Normalmente essas crianças estão empregadas em atividades não remuneradas ou ganham até um salário-mínimo, aliás rendimento recebido por mais da metade dos jovens que trabalham. É mais comum entre os meninos. Entre eles, a taxa sobe para 11% ¿ afirma Adriana Fontes, coordenadora da pesquisa.
Segundo a economista, a taxa pode ser explicada também pela forma de condução da pesquisa. Diferentemente dos levantamentos do IBGE, que entrevistam o chefe do domicílio, nesse mapeamento quem falou foi a própria criança.
43,4% trabalham sem carteira assinada
E a qualidade da ocupação não é das melhores: 43,4% trabalham sem carteira assinada e 13,2% são domésticos também sem contrato:
¿ Estão entrando no mercado pela porta dos fundos. Apenas 25,2% estão com a carteira assinada.
Alexsander Lopes da Silva, de 20 anos, está entre os trabalhadores sem carteira. Apesar de conseguir um salário entre R$700 a R$800, bem acima do salário-mínimo recebido pela maioria, não é registrado e nem tem garantia que terá serviço todos os dias na montagem de shows:
¿ É incerto ¿ conta Alex.
Ele começou a trabalhar aos 14 anos e cursa o primeiro ano do Ensino Médio. O atraso na escola foi provocado pela necessidade de trabalhar a mãe e pela violência. Voltando do trabalho, a mãe de Alex foi atingida por uma bala perdida na perna e, com a greve da Previdência Social no ano passado, levou oito meses para receber o auxílio-doença:
¿ Mas quero fazer faculdade de análise de sistemas.
Alojamento e alimentação, comércio e serviços domésticos são os setores que mais empregam esses jovens. E o destino do salário é a despesa familiar: 41% pagam contas da casa. É o caso de Miguel Javorivisk, de 15 anos, que está cursando a 7ª série do Ensino Fundamental. Ele procura emprego, como 10,3% dos jovens na sua faixa etária (15 a 17 anos). Trabalhou por dois meses numa empresa de limpeza, ganhando R$380 por mês:
¿ Ficava com cem reais e dava o resto para família ¿ conta ele, que teve o estudo prejudicado, pois chegava atrasado às aulas noturnas, e ainda procura emprego.
Aos 16 anos, Carine Santos Rodrigues também desistiu do trabalho de babá para se dedicar aos estudos. Tem planos. Quer se formar em Letras e dar aulas de espanhol:
¿ Eu faço cursos, quero me preparar ¿ diz a jovem, filha de uma recreadora de creche que, aos fins de semana, trabalha como acompanhante de idosos.