Título: O HAMAS QUE JÁ ESTAVA NO PODER
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 29/01/2006, O Mundo, p. 37
Partido obtém sucesso em administrações municipais com rigor e parceria política
BEIT HANOUN, Faixa de Gaza. Do ponto de vista de Mohammed Kafarna, tudo o que seu grupo radical islâmico, o Hamas, necessita para governar 3,8 milhões de palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia está sobre a sua mesa, ao alcance da mão. É uma cópia com capa de couro e letras douradas do Alcorão, o livro sagrado muçulmano.
Para quem está de fora, ¿Islã é a solução¿ ¿ o credo de Kafarna, Hamas e outros grupos islâmicos no Oriente Médio ¿ soa vago, senão sinistro, principalmente para um governo. No entanto, é essa crença que une a promessa em potencial e a armadilha representadas pela vitória do Hamas, o primeiro movimento islâmico na região levado ao poder pelo voto.
Quando Kafarna consegue um tempo livre em sua atividade como prefeito dessa cidade de dez mil pessoas na fronteira da Faixa de Gaza com Israel, ele se volta para o Alcorão para verificar se suas prioridades estão em ordem.
¿ Ele me lembra que Deus criou a Humanidade e que é nossa obrigação servir a ela ¿ disse Kafarna.
O Hamas, uma sigla para Movimento de Resistência Islâmica, tem muitas faces ¿ uma organização paramilitar sem dúvida, mas também uma organização de assistência social que desde a sua fundação em 1987 construiu escolas, hospitais e instituições religiosas e levanta fundos no exterior tanto para suas operações políticas quanto militares.
Recém-chegados aos governos locais, o Hamas se provou eficiente ao lidar com questões rotineiras que o Fatah tinha negligenciado durante os seus dez anos no poder.
Em Beit Hanoun, Kafarna se inspirou no manual político do ex-prefeito de Nova York Rudolf Giuliani ao assumir o cargo, um ano atrás: iniciou o mandato limpando as ruas, plantando árvores e flores, embelezando a cidade. Kafarna, então, levantou US$200 mil com um doador particular para construir uma clínica médica e reduziu o déficit de US$660 mil a um terço. As medidas foram apreciadas pelos moradores.
¿ Ele é um homem honesto e tem a confiança de sua gente, ao contrário de seu antecessor ¿ disse Islam Wajeh, um engenheiro aposentado.
O segredo para o seu êxito é simples, diz Kafarna:
¿ Nós lidamos com pessoas seja quais forem suas tribos ou facções de origem. Parceria política é a resposta.
A ênfase do Hamas em administrações capacitadas ecoou pela Cisjordânia. Com o endosso do grupo, a política independente Janet Michael, uma palestina membro da Igreja Ortodoxa Grega, foi eleita prefeita de Nablus no mês passado.
¿ Eles são boas pessoas, não são o Talibã ¿ afirmou Janet. ¿ Eles respeitam a nossa sociedade multicultural.
Em Qalqilya, o conselho municipal dominado pelo Hamas cumpriu a promessa de campanha de acabar com a corrupção instalando um sistema computadorizado de prestação de contas e licitação para contratos municipais.
Enquanto isso, o conselho municipal de Beit Ummar, também nas mãos do Hamas, implantou com sucesso uma campanha para evitar que Israel cortasse a energia elétrica dos moradores que não conseguissem pagar as contas. Estabeleceram um pagamento parcelado para os moradores que, com base na lei islâmica, não pagam juros.
¿ Todos nós somos um só. Nós lidamos com todos os palestinos em bases iguais. Não somos como os outros partidos. Nós ajudamos todas as pessoas ¿ disse Bader Abu Ayyaish, um vereador de 38 anos que tinge a barba de vermelho para mostrar sua devoção religiosa.