Título: CONTRADIÇÃO
Autor:
Fonte: O Globo, 30/01/2006, Opinião, p. 6
OBrasil, apesar dos importantes avanços logrados desde a abertura democrática, parece ser um exemplo típico de democracia light. Prova disso é o fato de que grande parte dos brasileiros desdenha seus representantes, como se não os tivesse elegido.
A superação desse estado de coisas implica diversas e profundas transformações em nossa ordem política e social, muito para além dos remendos que sempre habitam algumas propostas de reforma política. Uma delas, no entanto, exerce um papel crucial: a necessidade imperiosa de alterarmos o modo como a educação é tratada.
Salvo algumas exceções nos níveis local e estadual, a educação não é prioridade. A equação que congrega a devida universalização e qualificação do ensino com a redução dos gastos públicos, envidada pela política neoliberal, tem levado a resultados catastróficos.
O próprio modelo econômico atual, de fé dogmática no mercado, é incoerente com os padrões de qualidade exibidos por nosso sistema educacional. Um modelo fundado na iniciativa privada, como o que sucessivos governos procuram implantar, depende de profissionais qualificados, informados e criativos, que empreendam e realizem.
Para competir, é preciso competência. Sem um sistema educacional robusto, em todos os níveis, com uma eficiente alocação de recursos financeiros e efetiva valorização do magistério, o modelo não transpõe os limites da retórica ideológica, que, por artifícios simbólicos, abriga a ditadura do capital.
O homem é o sujeito da História, já dizia um antigo pensador do século XIX. As coisas não possuem um moto-próprio, embora condicionem a ação humana. Os juros são importantes, o superávit é importante, o Banco Central é importante, a infra-estrutura é importantíssima. Mas se pretendemos um futuro decente, temos de investir nas pessoas nossos melhores esforços.
FRANCESCO CONTE é procurador-geral do Estado do Rio de Janeiro.