Título: FAMÍLIA DE VÍTIMA DEVE PROCESSAR SHOPPING
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Fonte: O Globo, 30/01/2006, Rio, p. 12

Mãe de Mariângela Araújo, morta no estacionamento subterrâneo, quer punir culpados

Emoção e revolta no enterro de vitimas da chuva que atingiu o Rio de Janeiro na sexta-feira. Foram enterrados no Cemitério do Irajá, na manhã de ontem, Mariângela da Silva Araújo e Arnaldo Marcolino. Os dois morreram no estacionamento do Penha Shopping quando a água rompeu o portão e invadiu o local. A família de Mariângela pretende processar o shopping e a de Marcolino ainda não decidiu o que vai fazer. Já foi instaurado inquérito na 22ª DP (Penha) para apurar se o shopping tem responsabilidade nas mortes. O estacionamento é administrado pelo rede Pit Stop.

¿ Quero que os culpados sejam punidos e que esse momento sirva de exemplo ¿ gritava emocionada a mãe de Mariângela, Iraci Paulina da Silva, que tem diabetes, desmaiou no final do enterro e foi levada para o Hospital Getúlio Vargas.

Mariângela, de 34 anos, era apontadora de jogo do bicho e trabalhava ao lado do shopping. Ela guardava seu material dentro do estacionamento subterrâneo do shopping.

A mulher tinha perdido o pai há dois meses de câncer e vivia com a mãe e o tio, Sebastião Alves da Silva, de 55 anos, que estava com ela no momento em que a água rompeu a porta do estacionamento do shopping.

¿ Eu pedi para Mariângela deixar a bolsa, mas ela não quis e voltou para procurar. Jamais esquecerei esse momento ¿ disse o ambulante, que localizou a saída de emergência e conseguiu sobreviver.

Um ônibus e outros dois veículos saíram do Grotão, na Penha, para levar as cerca de 80 pessoas que acompanharam o enterro de Mariângela.

Filha de aposentada quer saber por que mãe não foi salva

O enterro de Arnaldo Marcolino, de 49 anos, foi acompanhado apenas por parentes e amigos próximos no Cemitério do Irajá. Arnaldo era operador de máquinas, tinha duas filhas do primeiro casamento e morava em Coelho Neto. Segundo parentes, ele costumava caminhar pela Penha, pois era um bairro de que gostava muito. A esposa de Marcolino, a aposentada Cecília Costa Lopes, de 49 anos, estava emocionada e disse que ainda não sabe se vai processar o shopping.

Amiga de Arnaldo, a aposentada Maria Célia Lopes, de 62 anos, também foi vítima do temporal. Todos os dias ela saía de casa no fim da tarde para comer churrasquinho em frente ao Penha Shopping, perto do seu apartamento, onde morava sozinha, na Rua Brás de Pina. A rotina foi mantida na última sexta-feira, minutos antes do temporal. A aposentada correu para se proteger quando viu a correnteza que se formava na rua, mas não conseguiu se salvar.

Maria Célia era viúva e tinha uma filha, Ana Cristina, de 40 anos, que estava em Saquarema quando soube da tragédia no Penha Shopping. O enterro aconteceu à tarde no Cemitério de Bongaba, em Piabetá.

¿ Estava longe da cidade quando recebi a notícia. Estou atrás de mais informações para saber por que não salvaram minha mãe ¿ disse a cabeleireira Ana Cristina, segurando a bolsa da mãe, resgatada pelos bombeiros no meio da enchente.

O corpo do autônomo Marçal Portela Filho continua no IML e só deve ser enterrado hoje porque seus parentes não estavam com sua carteira de identidade. Foram colhidas as impressões digitais da vítima e encaminhadas ao Instituto Félix Pacheco para a identificação. Os irmãos David e Daniel Rodrigues Rocha foram enterrados ainda na tarde de sábado, no Cemitério de Inhaúma.

Ontem também foram enterrados Luiz dos Santos Souza, no Cemitério do Caju; Claudio Henrique Chavez Mauzão, no Cemitério do Catumbi; e Iara de Oliveira Napoleão, de 70 anos, no Cemitério de Inhaúma. Maria Ivonete Miguel de Souza foi enterrada sábado no Cemitério de Irajá.

PARTICIPARAM DA COBERTURA: Ana Cláudia Costa, Gabriela Temer, Júlia Motta, Marina Gonçalves, Paula Santos Dias, Paulo Ricardo Moreira e Túlio Brandão

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