Título: EFEITO BERNANKE PODE AGITAR MERCADO
Autor: Patricia Eloy
Fonte: O Globo, 31/01/2006, Economia, p. 21
Posse de novo presidente do Fed pode afetar investimentos em emergentes
O novo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Ben Bernanke ¿ que assume o cargo amanhã, substituindo Alan Greenspan, que comandou o Fed por 18 anos ¿ herdará uma economia mais estável do que seus antecessores. Mas a mudança, estimam alguns analistas, pode ser usada como motivo para uma correção de preços nos mercados, em especial, os de economias emergentes, como o Brasil.
A verdadeira razão seria a forte recuperação recente dos indicadores brasileiros, que vêm batendo recordes seguidos. A Bolsa subiu mais de 25% no trimestre encerrado em janeiro, saindo de 30 mil pontos para 38.242 pontos ontem ¿ novo recorde histórico. Já o risco-Brasil caiu quase 30% no mesmo período, recuando de 360 para 261 pontos centesimais.
¿ Em algum momento deve haver uma acomodação de preços, mesmo que a perspectiva seja ainda positiva a médio prazo. Mudanças no Fed foram seguidas de maiores oscilações nos mercados. Não descartaria que Bernanke fosse usado como muleta para uma já esperada correção de preços ¿ avalia Marcelo Ribeiro, analista da Pentágono Asset Management.
Levantamento feito em dezembro pelos economistas do CSFB em Nova York mostra que novos presidentes do Fed costumam enfrentar um primeiro ano agitado. Paul Volcker (1979-1987) lidou com uma inflação de dois dígitos, seguida por um choque nos juros, e Alan Greenspan (1987- 2006), um crash do mercado de ações. Para os analistas, porém, Bernanke promete romper o ciclo, pois assume o Fed no fim de um processo de elevação de juros e em meio a perspectivas positivas para a economia global.
¿ Estamos otimistas com Bernanke, que tem um sério comprometimento com a estabilidade de preços e defende um sistema de metas de inflação. É natural, porém, que o mercado brasileiro passe por uma correção de preços, diante da forte recuperação dos ativos ¿ diz Nilson Teixeira, economista-chefe do CSFB no Brasil.
Outros analistas não estão tão otimistas e apontam como desafios para Bernanke o risco do estouro da bolha imobiliária nos EUA e uma eventual desaceleração da economia. Além disso, preocupa a elevada exposição dos investidores americanos em ações. Em dezembro, o depósito de margem (feito pelos investidores como garantia para poderem operar no mercado, em geral, bem abaixo do valor que aplicam nas ações) na Bolsa de Nova York chegou a US$221,6 milhões, volume próximo ao de dezembro de 1999 (US$228,5 milhões), antes da forte queda das ações de empresas de internet.
¿ Quanto maior o depósito, maior a exposição dos investidores acima do patrimônio e o risco dos mercados. Esse é um risco que Bernanke terá que enfrentar ¿ afirma Ribeiro