Título: HAMAS AGORA FAZ APELO POR AJUDA
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Fonte: O Globo, 31/01/2006, O Mundo, p. 24

Grupo palestino se nega, porém, a abandonar armas

CIDADE DE GAZA

Diante da reação amplamente negativa do Ocidente a sua vitória nas eleições legislativas palestinas, o grupo radical islâmico Hamas fez ontem um apelo à comunidade internacional para que não interrompa a assistência ao povo palestino, e ainda se dispôs a negociar os termos da ajuda externa. O apelo foi reforçado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), o moderado Mahmoud Abbas. O Hamas se recusou, porém, a abandonar as armas.

Os EUA se mantiveram firmes na posição de não negociar com um grupo que consideram terrorista. Reunidos em Londres, representantes do quarteto que media a retomada das negociações de paz entre Israel e palestinos ¿ União Européia (UE), ONU, EUA e Rússia ¿ condicionaram a ajuda à renúncia à violência e ao reconhecimento do direito de Israel de existir. Mas o grupo reagiu:

¿ O quarteto deveria exigir o fim da ocupação (israelense) e da agressão, e não que a vítima reconheça a ocupação e permaneça algemada diante da agressão ¿ disse o porta-voz Sami Abu Zuhri.

Em entrevista a jornalistas estrangeiros, um dos principais dirigentes do Hamas, Ismail Haniyeh, dissera mais cedo:

¿ Pedimos a vocês que continuem com o apoio moral e financeiro, e que dirijam toda a ajuda ao Tesouro palestino para que esta possa ser usada em prioridades do povo palestino.

Ele acrescentou:

¿ Estamos prontos para nos reunir e ter um diálogo aberto. Asseguramos que o dinheiro será gasto sob sua supervisão.

Perguntado sobre o desarmamento do grupo, Haniyeh respondeu, no entanto, que a UE deve entender ¿a realidade palestina¿ e não fazer exigências que ¿aumentam o sofrimento do povo que está buscando liberdade, o direito de retorno (dos refugiados) e a independência¿.

O apelo parecia indicar uma mudança de postura do grupo que prega a destruição de Israel e já assumiu a autoria de quase 60 atentados suicidas contra israelenses. Mas dirigentes têm demonstrado ambigüidade: enquanto alguns adotam uma linguagem mais moderada, outros se mostram intransigentes. Na Cisjordânia, Adnan Asfur afirmou ontem:

¿ O Hamas reconhece que a existência de Israel é uma realidade, mas se nega a legitimar a ocupação.

Já Mohammed Nazzal declarou em Damasco:

¿ Os americanos e a UE estão sonhando se acham que podem nos forçar a mudar nossas posições.

O presidente George W. Bush voltou ontem a condicionar a ajuda ao reconhecimento do direito de Israel existir.

¿ Nossa mensagem ao Hamas é: afaste-se das armas, rejeite o terrorismo, trabalhe para cumprir o que prometeu ao povo dos territórios palestinos ¿ disse.

Na Cisjordânia, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, reuniu-se com Abbas. Ele declarou ter dito a ela que apesar da vitória do Hamas sobre seu partido, o Fatah, os palestinos continuam comprometidos com a paz.

¿ Assinalei a importância da continuação do apoio financeiro ¿ disse.

Khaled Abu Anza, dirigente do Hamas, foi gravemente ferido a tiros ontem em Gaza, mas ninguém assumiu a autoria do atentado.

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