Título: PETRÓLEO DE NOVO NA ROTA DE BUSH
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Fonte: O Globo, 02/02/2006, O Mundo, p. 34

Presidente prega independência no setor de energia mas é alvo de duras críticas

WASHINGTON

Opresidente texano que chegou à Casa Branca há seis anos defendendo novas perfurações de petróleo no Ártico e prezando o modo de vida americano mudou o discurso. Menos ambicioso e mais moderado, George W. Bush surpreendeu os americanos terça-feira à noite ao afirmar que os EUA precisam buscar fontes alternativas de energia e enfatizar o impacto da globalização, alertando contra ¿o falso conforto do isolacionismo¿.

¿ Numa época complexa e desafiadora, o caminho do isolacionismo e do protecionismo pode parecer amplo e atraente, mas termina em perigo e declínio ¿ advertiu Bush no anual discurso sobre o Estado da União.

Numa de suas declarações mais inusitadas, o ex-empresário do setor do petróleo afirmou que os EUA estão ¿viciados em petróleo¿ e anunciou o objetivo de substituir 75% das importações de petróleo do Oriente Médio por etanol e outras fontes de energia até 2025. Mas mesmo esse objetivo é mais modesto do que pode parecer, uma vez que menos de 20% do petróleo consumido nos EUA vêm do Golfo Pérsico, como assinalou o ¿New York Times¿, lembrando que os maiores fornecedores do país são México, Canadá e Venezuela.

Para analistas, o apelo por independência no setor de energia pareceu uma esperta manobra política para ajudar os republicanos nas eleições legislativas deste ano ¿ os partidários de Bush estariam cada vez mais preocupados com os efeitos da escalada do preços do gás.

¿ Isso dá aos republicanos uma agenda legislativa além do tema do terrorismo, e qualquer agenda é melhor do que agenda nenhuma ¿ comentou Stephen Wayne, da Universidade de Georgetown.

Kerry critica: `a terra da fantasia¿

Como em outros anos, Bush dedicou boa parte do discurso a reafirmar sua política externa, pedindo mais liberdade no mundo, advertindo contra o ¿Islã radical¿ e defendendo a ofensiva no Iraque. Mas acrescentou um dado novo ao alertar para a competição de países como China e Índia. Para lidar com essa nova ameaça, propôs um grande investimento em pesquisa científica.

Bush acaba de atravessar seu ano mais difícil no governo ¿ em boa parte devido à falta de avanços no Iraque. Com popularidade em baixa, ele não se referiu ao ambicioso plano de reestruturação do sistema de previdência social que apresentara no discurso anterior ¿ e que sequer foi votado no Congresso. Limitou-se a pedir a criação de uma comissão para examinar o impacto no sistema dos aposentados da geração baby boom, voltando o foco para os setores de saúde e energia.

¿Ao presidente nunca faltaram grandes ambições, particularmente em política externa, e ele reafirmou muitas delas¿, disse David A. Singer em análise no ¿Washington Post¿. ¿Mas em seu discurso faltou a retórica elevada de alguns de seus maiores esforços no passado, e a agenda política interna, embora extensa, incluiu iniciativas que estão por perto há algum tempo. Neste sentido, o discurso lembrou o quanto a guerra no Iraque tirou a energia e a criatividade do governo, e o quanto ela continua a definir a Presidência de Bush.¿

A reação dos americanos não foi das mais entusiasmadas. Segundo uma pesquisa da CNN, foi muito positiva para 48%, favorável para 27% e negativa para 23%. Em editoriais, jornais americanos criticaram duramente o discurso. Para o ¿Washington Post¿, Bush ¿mostrou pouca ambição para lidar com os maiores desafios dos EUA internamente e no exterior¿. Já o ¿New York Times¿ considerou medíocre sua abordagem sobre um tema importante como a independência em energia. Para o senador John Kerry, derrotado por Bush nas eleições de 2006, o presidente descreveu o país ¿como uma terra da fantasia¿.

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