Título: Governo chinês mantém 30 mil `censores¿ monitorando a internet
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 06/02/2006, Informáticaetc, p. 2

Google, Microsoft, Yahoo! e Cisco recebem críticas do Congresso americano

massacre

As grandes empresas americanas com negócios na internet sempre olharam deslumbradas para o mercado chinês. É lógico. Com 115 milhões de internautas, atrás apenas dos EUA em termos de população conectada à rede, trata-se de um filão que acena com infinitas possibilidades de lucro. Mas mesmo o mais bem intencionado dos negócios online pode esbarrar no gigantesco aparato de controle que a China exerce sobre a internet em seu território.

Para operar no controladíssimo mundo da internet chinesa ¿ especialistas estimam que existam hoje cerca de 30 mil pessoas monitorando o que se vê na rede do país, além dos programas e filtros ¿ estas companhias estão sendo obrigadas a rezar pela cartilha chinesa e bloquear temas em ferramentas de busca, tirar do ar blogs considerados ofensivos e por aí vai.

Congresso americano também pede explicações

Na quarta-feira passada, o Congresso americano entrou na discussão que se espalhou internet afora e decidiu convocar informalmente não só o Google como Microsoft, Yahoo! e Cisco ¿ as quatro que aceitaram as condições do governo chinês ¿ a prestarem depoimento numa comissão que se propõe a investigar até onde estas práticas violam o princípio americano do discurso livre... mesmo que seja na China. Nenhuma apareceu para dar explicações.

¿ Estas empresas colaboram com o governo chinês no controle da informação e ajudam-no a punir quem tem a coragem e a determinação de brigar pela democracia ou pela liberdade ¿ afirmou o deputado democrata Tom Lantos, um dos presidentes do Comitê de Direitos Humanos do Congresso Americano. ¿ Elas aceitam as pressões do governo de Pequim em busca de lucros. Elas deveriam ter vergonha!

Até agora, a comunicação das empresas americanas não tem sido eficiente na tarefa de explicar ao mundo por que agem do jeito que agem na China. Em enxutos comunicados oficiais, as companhias usam uma lógica cristalina: se elas estão operando em território chinês, precisam obedecer às leis do país. Nos bastidores, executivos lembram que, no próprio EUA, elas vendem programas que permitem a empresas, escolas e até a simplórios pais de família filtrarem o que seus empregados, alunos ou filhos estão vendo na rede.

No Fórum Econômico de Davos, realizado mês passado, tanto Sergey Brin quanto Bill Gates, dono da Microsoft, saíram em defesa de suas companhias argumentando que qualquer informação é melhor que nenhuma. Ou seja, é melhor ter as empresas na China provendo acesso e informação a chineses, ainda que censuradas, do que não estar lá.

¿ Muitos ficaram incomodados com a nossa decisão. Mas eu cheguei à conclusão de que mais informação é sempre melhor, mesmo que censuradas ¿ disse Brin.

Gates concorda. E argumenta que, aos poucos, estas barreiras também serão derrubadas:

¿ A internet está ajudando o engajamento político dos chineses, e o acesso a sites fora do país está prevenindo o aumento da censura.

Em artigo publicado mês passado no GLOBO, o professor de bioética da Universidade de Princeton, Peter Singer, derruba os argumentos do acatamento às leis chinesas evocados pelas empresas, em especial a Microsoft:

¿Os sites da MSN Spaces (hospedeiro dos blogs da MS) são mantidos em servidores nos EUA. As leis locais relevantes deveriam ser, portanto, as dos EUA, que não são violados pela discussão de Zhao Jing sobre a greve de jornalistas em Pequim. Nem há leis globais que impeçam o povo chinês de discutir acontecimentos que seu governo prefere que não se discuta¿, dizia Singer, no artigo.

CENSURA NO GOOGLE VAI MUITO ALÉM DAS PALAVRAS, na página 3