Título: Divisões
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 07/02/2006, O GLOBO, p. 2
Que a disputa da Presidência este ano seria polarizada entre PT e PSDB já era sabido. Há alguns anos os dois partidos vêm atraindo as maiores parcelas do eleitorado. Protagonizaram o rodízio no poder em 2002. Nem surgiu, ao longo do atual governo, mesmo com a ajuda da crise, um nome alternativo ou uma terceira via partidária. Muito claramente a pesquisa Datafolha aponta para a disputa Lula-José Serra. O que ela mostra como novidade é a divisão do eleitorado entre ricos e pobres.
Ou entre os mais e os menos pobres. O crescimento do presidente Lula deu-se também muito claramente nas camadas de menor renda: foi de nove pontos percentuais entre os que ganham até cinco salários-mínimos e de oito entre os que ganham de cinco a dez salários-mínimos. Foi entre os menos instruídos que conseguiu seus maiores índices de aprovação: 40% entre os que não passaram do ensino fundamental e apenas 27% entre os que têm curso superior.
Estas respostas do eleitorado correspondem à estratégia que o governo vem seguindo com a ampliação dos gastos sociais, em particular com o programa Bolsa Família, o congelamento discreto (mas que será ainda trombeteado) do preço do gás de cozinha, a distribuição de bolsas de curso superior pelo ProUni a estudantes de baixa renda e o aumento substancial do valor do salário-mínimo. Se entre os mais pobres Lula vai bem, continua enfrentando a decepção das classes médias, que engrossam sua alta taxa de rejeição eleitoral (34%, contra apenas 17% de José Serra).
A estratégia de Lula é forçar a comparação de desempenho entre o seu governo e o de Fernando Henrique, certo de que se sai melhor na maioria dos itens. Mas tem ouvido que precisa acenar à classe média com algo mais que a correção da tabela do Imposto de Renda em 8%, índice que não compensa o congelamento da tabela nos tempos recentes. Nos oito anos de FH, só foi corrigida no último ano, também em índices insatisfatórios. Sem reconquistar uma fração da classe média, Lula pode ir ao segundo turno e perder para Serra, como mostra a simulação do Datafolha.
Para os tucanos, o problema da escolha do candidato vai sendo resolvido pelas próprias pesquisas, à medida em que elas distinguem Serra como o único capaz de derrotar Lula. Resta a questão do discurso de campanha, que eles discutem mais pelos jornais do que entre si. Na semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique instruiu-os, de público, a levar a questão ética para o centro da campanha. Serra e Alckmin imediatamente concordaram. Reiterou o conselho com a entrevista à revista ¿IstoÉ¿. Pela expressão ¿a ética do partido é roubar¿ e outros ataques, será processado pelo PT. Mas no artigo mensal publicado no domingo pelo GLOBO, cedeu à estratégia governista, ao rebater a gabolice petista com o aumento do salário-mínimo e os preparativos da Petrobras para anunciar a conquista da auto-suficiência em petróleo. Pois se Lula cresce depois de todo o escândalo, com as CPIs ainda funcionando, está claro que os eleitores levarão em conta não apenas as razões éticas mas também as administrativas. Pelo menos os mais pobres estão se guiando também pelas últimas. Num quadro de fortalecimento da esquerda e do populismo na América Latina, a divisão do eleitorado por classes pode ser um ingrediente forte.