Título: O papel de FH
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 08/02/2006, O GLOBO, p. 2
Os tucanos foram surpreendidos pelo último ataque do ex-presidente Fernando Henrique a Lula e ao PT. Mesmo achando que ele passou do ponto, seguiram sua orientação, endossaram as críticas e fizeram outras. Ao se apresentar como condutor do PSDB no confronto com o PT, FH desperta no partido a percepção de que esteja em busca de um papel político mais proeminente, que para alguns poderá ser a disputa do governo de São Paulo.
Se em algum momento do processo interno do PSDB isso ficar claro e a situação recomendar, a candidatura a governador poderá lhe ser oferecida, com um apelo para que a aceite na condição de melhor nome para enfrentar Marta Suplicy ou Mercadante, do PT. A disputa paulista terá um peso importantíssimo no resultado da eleição presidencial. Mas há obstáculos: os quatro pré-candidatos a governador.
O que já ficou claro há bastante tempo é que Fernando Henrique optou por ser um protagonista ativo, recusando o papel de ex-presidente recolhido e sóbrio, que se manifesta sobre os grandes temas de forma apartidária. Aliás, nenhum dos ex-presidentes vivos seguiu tal figurino mas nenhum até hoje foi tão agressivo quanto ele em relação ao sucessor. De quase encantado por entregar a faixa presidencial ao sucessor-operário, no fim de 2002, FH tornou-se o mais ácido crítico de Lula, a quem dedicou a frase que gosta de repetir, ¿o rei está nu¿. Ao PT reservou o mais duro epíteto já aplicado a um partido adversário: ¿A ética do partido é roubar¿. No programa ¿Roda Viva¿ de segunda-feira procurou dar sentido menos literal a esta frase, dita na entrevista à revista ¿IstoÉ¿, que motivará uma ação judicial do PT: quis dizer, explicou, que o PT, por se achar mais puro, sente-se autorizado a cometer ilícitos em nome de seu projeto político. Após esta passagem na defensiva, recobrou a conhecida desenvoltura verbal e o novo tempero beligerante.
Do ponto de vista da estética da política ele tem se saído um excelente anti-Lula. Mas como não será o candidato (diz não ter este desejo, e se o tivesse não seria recomendado pelas pesquisas), eleitoralmente pode não estar ajudando muito seu partido, admitem alguns tucanos. Assumindo o papel de guia político do PSDB ele acabará sobrepondo sua marca à do candidato. Seja ele Serra ou Alckmin, não se apresentará como continuador do governo passado (mesmo fazendo sua defesa) e sim como líder de um projeto alternativo ao de Lula.
No PT, continuam pipocando reações, inclusive dos que têm bons canais com os tucanos, como o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel:
¿ Ele está prestando um desserviço ao Brasil, inviabilizando qualquer convergência pela governabilidade. E ela será necessária, ganhe quem ganhar.
Ou o governador do Acre, Jorge Viana, de conhecidos laços afetivos com FH:
¿ Lamento inclusive o fato de sua extraordinária figura estar sendo posta a serviço da escaramuça, e não no altar dos magistrados que já governaram o país. Mas ele ainda verá que está dando uma grande ajuda ao Lula ¿ diz Viana.
A conferir depois do jogo.