Título: SER TOLERANTE COM A INTOLERÂNCIA
Autor:
Fonte: O Globo, 08/02/2006, O Mundo, p. 29
Semana passada, o jornal alemão ¿Die Zeit¿, para o qual trabalho, publicou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Foi a coisas certa a fazer.
Quando as charges foram primeiramente publicadas, em setembro, na Dinamarca, ninguém na Alemanha tomou conhecimento. Se os desenhos tivessem sido oferecidos a nós, não os teríamos publicado. Pelo menos um deles parece igualar o Islã ao islamismo radical. Esta é exatamente a direção que ninguém quer que o debate sobre fundamentalismo tome ¿ embora a natureza da charge política seja o exagero. Não teríamos publicado por um senso de moderação e respeito à minoria muçulmana em nosso país. Pessoas da mídia julgam o bom gosto o tempo todo. Não mostramos fotos sexualmente explícitas ou de cadáveres depois de um ataque terrorista. Tentamos manter o racismo e o anti-semitismo fora do jornal. A liberdade de imprensa é acompanhada de responsabilidade.
Mas o critério muda quando o material considerado ofensivo se torna notícia. Por isso vimos corpos caindo do World Trade Center. Por isso vimos fotos de Abu Ghraib. Nesses casos, publicamos o que não publicaríamos. A própria natureza do discurso é encontrar parâmetros do que é culturalmente aceitável. Parece estranho que a maioria dos jornais americanos controle seus leitores evitando charges que o mundo inteiro comenta. Publicá-las não é endossá-las. O que importa é o contexto.
Vale lembrar que a controvérsia começou com uma tentativa de escrever um livro infantil sobre a vida de Maomé. Artistas se recusaram a ilustrá-lo, temendo por suas vidas, o que chamou a atenção do jornal dinamarquês ¿Jyllands-Posten¿. Um editor encomendou as caricaturas. Queria ver se os chargistas se auto-censurariam. A mídia européia ignorou a história. Só publicou as charges depois que a confusão se formou e a questão era menos relacionada a respeito religioso do que a liberdade de expressão.
Grande parte das reportagens americanas sobre a briga fez parecer que os europeus não haviam entendido ¿ de novo. Eles lutam com a imigração, com a religião, com o respeito às minorias. E, no fim, suas cidades queimam, como aconteceu em Paris. Bill Clinton chegou a identificar um ¿preconceito antiislâmico¿. Virou o argumento de cabeça para baixo. Nessa jihad sobre o humor, a tolerância é desdenhada por pessoas que a exigiam. Governos autoritários que dizem falar em benefício das minorias muçulmanas reprimem sistematicamente suas próprias minorias religiosas. Radicalizaram o que de início era uma questão difícil. Agora pedem não respeito, mas submissão. Querem que muçulmanos na Europa vivam sob regras muçulmanas. Clinton quer aconselhar ser tolerante com a intolerância?
Sexta-feira, o Departamento de Estado achou apropriado intervir. Condenou a publicação das charges como um inaceitável incitamento ao ódio religioso. É peculiar os EUA ¿ que gostam de se ver como lar da liberdade de expressão ¿ sugerirem a jornais europeus que não as publiquem.
THOMAS KLEINE-BROCKHOFF é chefe da sucursal do ¿Die Zeit¿ em Washington