Título: IRÃ FAZ CONCURSO DE CHARGES SOBRE HOLOCAUSTO
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Fonte: O Globo, 08/02/2006, O Mundo, p. 29
Aiatolá acusa Israel por desenhos de Maomé. Mais quatro pessoas morrem no Afeganistão em ataque contra tropas da Otan
TEERÃ e COPENHAGUE. Num dia em que os ataques contra alvos europeus em país de maioria islâmica causaram mais mortes de muçulmanos radicais, um jornal controlado pelo governo do Irã anunciou ontem que realizará um concurso internacional de caricaturas sobre o Holocausto, numa vingança pela publicação de charges do profeta Maomé em jornais ocidentais. O líder supremo do regime teocrático iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, acusou Israel de ser o responsável pelas caricaturas.
O mais vendido jornal do Irã, o ¿Hamshahri¿ (O Cidadão), da prefeitura de Teerã, anunciou ontem que abriu inscrições para um concurso mundial de charges cujo tema deve ser o Holocausto e a opressão americana no mundo. O presidente Mahmoud Ahmadinejad foi o prefeito da cidade até vencer a eleição nacional em junho. Aliados seus o substituíram. Ahmadinejad já disse em diversas ocasiões que o Holocausto é um mito.
¿Permite a liberdade de expressão ocidental tratar de temas como os crimes de EUA e Israel e um incidente como o Holocausto, ou esta serve só para insultar os valores sagrados das religiões do mundo?¿, pergunta o diário, que publicará os 12 trabalhos vencedores em março.
Presidente da Fundação Holocausto protesta
Entre nove milhões e 11 milhões de pessoas morreram em campos de extermínio nazistas ou por meio de outras formas de execução em massa durante a Segunda Guerra Mundial. Cerca de seis milhões das vítimas eram judeus.
Ontem, a presidenta da Fundação Holocausto, Ala Guerber, criticou Teerã:
¿ Esta é uma ação coordenada para semear o ódio contra Israel e o Ocidente nos países muçulmanos.
O aiatolá Khamenei acusou ontem Israel de ter sido responsável pelas charges:
¿ O Ocidente condena qualquer negação do Holocausto judeu, mas permite o insulto de santidades islâmicas. (As charges) são uma conspiração dos sionistas, que estão furiosos pela vitória do Hamas (nas eleições palestinas).
As 12 charges de Maomé foram publicadas em 30 de setembro no jornal dinamarquês ¿Jyllands-Posten¿, quatro meses antes da eleição do Hamas.
A União Européia reagiu ontem contra a decisão iraniana de proibir a entrada de produtos dinamarqueses.
¿ Um boicote a produtos dinamarqueses é, por definição, um boicote a produtos europeus ¿ disse o porta-voz da UE, Johannes Laitenberger.
Pelo segundo dia seguido, a embaixada da Dinamarca em Teerã foi atacada. O mesmo ocorreu com a representação da Noruega. Ocorreram protestos também em Bangladesh, Paquistão, Egito, Iêmen, Djibuti, Gaza, Azerbaijão e Níger.
O protesto mais violento ocorreu em Maymaneh, Afeganistão. Trezentos radicais atacaram com pedras, armas e granadas uma base da Otan com soldados noruegueses. Quatro manifestantes foram mortos a tiros. Já são 11 os mortos nos distúrbios.
Grandes jornais de países, como Austrália, França, Japão e África do Sul publicaram as charges, mas não os EUA. Neste país, jornais como ¿Washington Post¿ e ¿New York Times¿ preferiram não publicá-las. O ¿Times¿ explicou ontem que informar sobre os conflitos sem publicar as charges é uma ¿opção razoável¿ para organizações que se abstêm de ¿ataques gratuitos¿ contra símbolos religiosos.