Título: LULA: 'NÃO POSSO ADMITIR NERVOSISMO ELEITORAL'
Autor: Maria Lima
Fonte: O Globo, 10/02/2006, O PAÍS, p. 8
Presidente se queixa das pressões para que defina candidatura e retoma discurso em favor dos países pobres
ARGEL. Nenhuma palavra sobre as ácidas críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nome proibido no vocabulário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias. Mas a turbulência política e os ataques da oposição ao governo o levaram a avisar que não se moverá em razão da pressão dos políticos, do próprio PT nem dos adversários, que cobram uma definição rápida sobre sua candidatura à reeleição. Ele voltou a criticar o instituto da reeleição e avisou que anunciará sua decisão em junho. ¿ Não posso permitir que o nervosismo eleitoral faça com que o presidente tire a cabeça do principal , que é a economia brasileira, o povo brasileiro e o desenvolvimento do Brasil. O presidente reclamou de críticas sobre sua agenda política e admitiu que o terceiro ano de governo, que deveria ser o mais tranqüilo, não foi, já que todos debitam tudo que faz à campanha eleitoral. Ao falar de sua preferência por um mandato de cinco anos sem reeleição, Lula observou que no primeiro ano os presidentes assumem com um orçamento feito pelo governo anterior. No segundo ano, disse, tem eleições municipais, o que sempre envolve a Federação. E reclamou que, em seu caso, no terceiro ano, em que sempre há uma folga, isso não ocorreu porque a oposição não deu trégua. ¿ Em 2006 tudo está bem, a economia indo bem, e chegou a hora de colhermos o que plantamos, mas tudo o que o presidente faz é eleitoreiro. Se acorda, é por causa da eleição. Se come, é por causa da eleição, se vai dormir, é por causa da eleição ¿ reclamou Lula, em conversas informais durante sua permanência na Argélia.
"O presidente não pode ter pressa. Tem muito a fazer"
Antes de embarcar para o Benin, segunda etapa da viagem à África, Lula teve um café da manhã com os jornalistas brasileiros, quando falou sobre a reeleição, afirmando que não vai discutir se é contra ou a favor. ¿ Ela existe no Brasil e pronto. Mas não pode haver pressa para que presidente se lance à reeleição, porque ele tem muita coisa a fazer até 31 de dezembro. Tenho dito o seguinte: Nós plantamos muita coisa e estamos colhendo o que plantamos. Estou confiante, estou tranquilo. O Brasil tem forte possibilidade de crescimento econômico, e poderemos ter um crescimento extraordinário na geração de emprego e renda ¿ previu. Coube ao próprio presidente Lula abordar o tema da reeleição. A imprensa fora orientada a evitar os temas políticos. Quando abriu essa brecha, contudo, em duas ocasiões os jornalistas foram solicitados pela assessoria a interromper a entrevista. Na Argélia, Lula retomou o discurso em defesa dos países pobres e emergentes, para tentar vender a idéia da reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e, ao mesmo tempo, convencer os países desenvolvidos a ceder nas propostas de abertura de seus mercados, destravando as negociações da da Organização Mundial do Comércio (OMC) ¿ a chamada Rodada de Doha. Segundo o presidente, os interesses comerciais das nações mais ricas do mundo estarão em risco se as necessidades básicas dos países pobres não forem atendidas. ¿ Não espero facilidades na mesa de negociação. Mas ninguém ganha nada se começar negociando de cabeça baixa e dizendo: pelo amor de Deus, sou pobre, me dê uma coisinha aí. O que eles respeitam é a cabeça erguida ¿ disse o presidente. ¿ Os países ricos têm que abrir o cofre, abrir o coração. O que quero, não quero para mim, quero para a humanidade.