Título: VIAGENS PRA CHUCHU NO DIA-A-DIA DE ALCKMIN
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 12/03/2006, O País, p. 8
Para vencer a falta de popularidade fora de São Paulo, governador cumpre agenda de pré-candidato
SÃO PAULO. Ciente da falta de popularidade em boa parte do país, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), corre contra o tempo para tentar mostrar ao eleitor que tem fôlego suficiente impor a sua imagem e disputar a Presidência da República. Desde que percebeu os primeiros sinais de que enfrentaria dificuldades para obter a indicação do partido, Alckmin resolveu se concentrar nos últimos seis meses em compromissos de pré-candidato, dividindo-os com o governo. No vácuo da demora do prefeito José Serra para anunciar sua decisão, o governador entrou na corrida priorizando sua presença em inaugurações, eventos partidários e na incansável andança pelo país em busca de apoio.
Com a imagem consolidada em São Paulo ¿ falta para ele conhecer apenas dez das 645 cidades do estado ¿ não se fez de rogado e partiu para o corpo-a-corpo onde sua popularidade ainda é pífia. Do sul ao norte do Brasil, procurou se aproximar das bases tucanas. Somando as viagens que fez a Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, o governador esteve mais de 15 vezes no Sul do país.
Viagens ao Rio, antes um destino raro
Também foi ao Rio algumas vezes (onde raramente ia) inclusive na abertura do carnaval, ciceroneado pelo vice-prefeito Otávio Leite, também tucano. A agenda no Sambódromo só foi confirmada depois que a assessoria de Alckmin teve certeza de que o prefeito Cesar Maia (PFL) não estaria. O pefelista havia anunciado apoio ao nome de Serra para presidente.
Na Bahia, o governador, nascido em Pindamonhangaba, interior paulista, chegou a dizer que era baiano, porque seu avô nasceu lá. Na Paraíba, recebeu o título de cidadão paraibano. Também priorizou idas a Goiás, estado administrado pelo governador Marconi Perillo (PSDB), com quem chegou a festejar o aniversário na semana passada. Perillo é um dos seis governadores do PSDB que tem trabalhado mais abertamente pela candidatura de Alckmin a presidente.
O governador praticamente não interrompeu a agenda de viagens um fim de semana atrás do outro, sempre procurando esbanjar simpatia, como forma de se contrapor ao sisudo José Serra. Em palestras, promoveu ações de seu governo.
Nos últimos dois meses, o governador aproveitou a discussão sobre a escolha do candidato tucano para lançar os holofotes em sua própria direção. Se nos fins de semana ele deixa São Paulo, ao longo da semana capitalizava com o factóide construído em razão do impasse no PSDB para promover seu trabalho à frente do governo paulista. Com agenda apertada, Alckmin teria antecipado para as últimas semanas uma série de inaugurações que seriam feitas a partir de abril. Em algumas saídas fica evidente o interesse eleitoreiro, como a vez em que andou de trem entre São Paulo e Caieiras para conhecer um novo maquinário adquirido por sua administração.
Em muitas inaugurações às quais tem comparecido nos últimos dias, tem sido aplaudido por claques, arregimentadas por seus aliados no diretório estadual do PSDB. Em alguns eventos pode se ver grupos com camisetas amarelas com a inscrição ¿Sou alckmista¿. Na inauguração de uma escola técnica, a Fatec, na semana passada, O GLOBO constatou que três ônibus fretados pela Fatec, ligada ao governo do estado, compareceram à inauguração carregados com professores que aplaudiam o tucano e gritavam ¿Alckmin presidente¿. O governo negou o uso da máquina no evento.
Vídeo em que Covas chama Alckmin de ¿companheirão¿
Na semana passada, o governador aproveitou a celebração do aniversário de cinco anos da morte do governador Mário Covas para fazer publicidade de seu governo. Em plena Sala São Paulo, depois da apresentação da Orquestra Filarmônica, o vídeo apresentado num telão em homenagem a Covas terminou com uma ode ao trabalho do governador. Nele, Covas o chama de ¿companheirão¿.
Para evitar especulação de que usa a máquina administrativa em benefício próprio, faz questão de chegar a qualquer evento não governamental, sobretudo os ligados ao PSDB, dirigindo sua própria Parati, uma prática que herdou de Covas. No lado pessoal, Alckmin resolveu brincar até mesmo com o apelido de picolé de chuchu, o qual recebeu por conta de seu estilo apático de governar: intensificou a ida a restaurantes populares patrocinados pelo governo estadual, o Bom Prato, onde fazia questão de dizer que seu governo promoverá o crescimento e gerará empregos ¿pra chuchu¿.