Título: TENTANDO RENEGAR OS RESULTADOS DA INVASÃO
Autor: Rupert Cornwell
Fonte: O Globo, 12/03/2006, O Mundo, p. 44

Era de se esperar que os neocons americanos que forneceram o suporte intelectual para a invasão do Iraque agora se afastassem dos resultados. Que escolha eles têm, considerando as conseqüências? Mas argumentar, como a maioria deles o faz, que eles ainda apóiam a decisão original de invadir, mas que admitem que a fase posterior foi mal administrada, não é apenas ilusório, é desonesto.

As falhas da ocupação do Iraque foram o resultado direto, em primeiro lugar, do modo como a invasão foi decidida. Não se pode separar as duas, como se uma não fosse o resultado de um julgamento e a outra, de uma diferente série de suposições. Os EUA foram à guerra, e o Reino Unido foi junto, na crença de que uma mudança de regime no Iraque poderia remodelar todo o Oriente Médio: na época, o 11 de Setembro foi usado como razão, mas não foi a causa. Nem o desejo de derrubar uma tirania.

Se fosse, a invasão teria sido organizada com um plano pós-guerra adequado de reconstrução e desenvolvimento. Em vez disso, os planos desenvolvidos pelo Departamento de Estado foram arquivados e todas as decisões foram transferidas para o Pentágono, precisamente para mantê-las firmemente nas mãos de Cheney, Rumsfeld e dos neocons.

A invasão foi levada sob a alegre crença, mantida pelos seus arquitetos e pelo premier britânico, Tony Blair, do outro lado do Atlântico, de que seria um caso simples e rápido, no qual a população civil agradeceria às tropas invasoras, e que traria espontaneamente um bravo novo mundo de democracia, que seria exportado a todos os vizinhos do Iraque.

Qualquer um que sugerisse o contrário era deixado de lado pelas mesmas pessoas que agora dizem que, embora as intenções iniciais fossem boas, a fase posterior foi completamente errada e que nada tem a ver com eles.

Nesse sentido, Tony Blair pode ser contado como um deles. De acordo com fontes e gravações de reuniões que vieram à tona, ele nunca perguntou se havia um plano pós-invasão adequado e, se não havia, por que não.

Esta é a verdadeira desonestidade na maneira com que Blair tenta torcer a história. Muito tem sido falado de sua menção à religião num programa de TV. Ele, muito cuidadosamente, trouxe Deus à questão. Mas se os seus pontos de vista são, ou não, baseados em sua crença cristã, não vem ao caso.

Não, a religião foi introduzida como parte de uma narrativa mais sutil e insidiosa com que ele agora acena sobre sua decisão de ir à guerra. De que a decisão foi uma questão de julgamento com a qual ele lutou e que finalmente tomou de boa fé.

Não é verdade. Ele foi com Bush porque apoiar os EUA parecia a coisa certa a fazer e porque era muito mais fácil do que enfrentar os problemas que uma recusa traria. Era necessário mais coragem para dizer não a Bush do que para se juntar a ele.

ADRIAN HAMILTON é colunista do Independent