Título: MAIS DO QUE JUSTA
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Fonte: O Globo, 15/03/2006, Opinião, p. 6

Oagronegócio tem dado enorme contribuição para o fortalecimento da economia brasileira. Uma parte muito significativa do saldo da balança comercial vem sendo gerada pelas exportações do setor. Graças ao agronegócio, novos pólos de desenvolvimento surgiram no interior, em um processo de descentralização com conseqüências políticas e econômicas positivas para o país.

O agronegócio superou desafio tecnológicos, mas ainda é obrigado a conviver com sérias dificuldades na infra-estrutura, que encarecem o transporte e dificultam a comercialização dos produtos. E quase sempre esbarra no protecionismo dos países mais ricos, que não aceitam a competição leal quando se trata de produtos agropecuários.

Mas nada disso foi suficiente para desestimular os produtores, e o resultado desse entusiasmo pode ser percebido não só na balança comercial mas também nos índices de inflação: os preços dos alimentos têm se comportado abaixo da média, fazendo com que a cesta básica apresente variações percentuais pouco significativas se comparadas com o aumento de salários e da renda dos trabalhadores.

Mas o agronegócio se tornou vítima de seu próprio sucesso. O excelente desempenho das exportações do setor é um dos fatores que levam o real a se apreciar frente ao dólar e demais moedas fortes, de modo que, mesmo com as cotações dos produtos mantendo-se em relativa estabilidade no exterior, os produtores brasileiros têm recebido internamente menos recursos por cada tonelada vendida.

Simultaneamente, os custos dos principais insumos (combustíveis, fertilizantes, defensivos, máquinas) e dos fretes não recuaram com a apreciação do real. Ao contrário, vários até dobraram.

De alguma forma o mercado restabelecerá um novo equilíbrio, mas até que isso aconteça o agronegócio precisa ganhar fôlego, merecidamente. E uma maneira de se fazer isso, sem o retorno de subsídios e a renegociações descabidas de dívidas que tantas distorções causaram no passado, é a redução de carga tributária incidente sobre o setor e seus insumos. Em face da contribuição que o agronegócio continuará a dar ao país, tal desoneração é mais do que justa.