Título: REMÉDIO NÃO ALIVIA INFLAÇÃO
Autor: Cássia Almeida e Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 25/03/2006, Economia, p. 37

IPCA-15 recua, mas reajuste de medicamentos responderá por metade da taxa de abril

Ainflação recuou em março e fechou o primeiro trimestre em 1,41%, contra 1,78% nos três primeiros meses do ano passado, informou ontem o IBGE. Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15, que mede a inflação entre os dias 15 de cada mês) foi de 0,37%, abaixo do 0,52% de fevereiro. Mas o reajuste dos preços dos remédios, anunciado pelo governo no último dia 11, vai pesar no bolso do consumidor nos próximos meses.

Metade da inflação de abril deve vir dos medicamentos. Se todo o aumento de 5,5% autorizado pelo governo para 21 mil tipos de remédios for aplicado em abril, isso representará um acréscimo de 0,22 ponto percentual no IPCA fechado do mês, calcula Eulina Nunes, coordenadora do Sistema de Índice de Preços do IBGE. Ou seja, 50% da inflação prevista para abril, que, segundo analistas, deve ficar entre 0,45% e 0,55%. Os novos preços dos medicamentos passarão a valer na sexta-feira da próxima semana.

¿ Se este ano for igual a 2005, as farmácias devem aplicar todo o índice permitido pelo governo. No ano passado, o reajuste alcançou 5,99%, contra 5,87% da inflação média. Não foi a maior pressão no índice, mas foi uma alta importante ¿ afirma Eulina.

A técnica diz que as farmácias podem não aplicar o reajuste todo em abril. Há demora no envio pela indústria dos livros com os novos preços. Em 2005, as maiores altas foram dos preços dos remédios mais vendidos, como analgésicos e antitérmicos, que subiram 8,96%, seguidos dos antigripais, com aumento de 8,54%.

O presidente do Sindicato das Farmácias da Cidade do Rio de Janeiro, Felipe Terrezo, não vê espaço para altas tão fortes nos medicamentos. Ele diz que está havendo uma guerra de preços entre as farmácias, o que dificulta o reajuste:

¿ O aumento é pequeno para as farmácias e alto para a população.

Álcool sobe 24% este ano e gasolina, 3,5%

No IPCA-15, a alta dos combustíveis respondeu por mais da metade da inflação. Juntos, gasolina e álcool tiveram peso de 0,20 ponto percentual no índice, que foi de 0,37%. O álcool já subiu 24,4% este ano e a gasolina, 3,5%.

Os combustíveis devem pressionar ainda mais a inflação fechada do mês. Para analistas, o IPCA de março ¿ referente ao mês corrido, ou seja, à variação de preços entre os dias 1º e 31 ¿ absorverá todo o impacto do reajuste da gasolina e do álcool, intensificado no fim de fevereiro.

¿ O IPCA-15 só captou metade da alta dos combustíveis ¿ explica Elson Teles, da corretora Concórdia.

Ele destaca que os combustíveis foram também o maior peso na inflação acumulada do ano: responderam por mais de um terço da variação de 1,41% do IPCA-15.

O economista Alexandre Sant¿Anna, da ARX Capital, lembra que em abril, apesar da pressão prevista dos medicamentos e dos combustíveis, o grupo educação, que vinha pesando na inflação desde janeiro, não deve apresentar alta. As mensalidades escolares, depois de subirem 5,38% no IPCA-15 de fevereiro, tiveram aumento de 0,80% no índice de março.

Em março, diz o IBGE, o grupo alimentos teve deflação (queda de preços) de 0,08%, graças principalmente às carnes. Com a ocorrência da gripe aviária na Europa e na Ásia, os preços do frango recuaram 8,45%.

¿ A inflação no próximo trimestre será muito baixa. Os preços de alimentos estão caindo no atacado e o álcool também deve recuar com força a partir de maio, já que a safra deve começar em abril ¿ diz Marco Antonio Franklin, da Plenus Administradora de Recursos.

No Rio de Janeiro, a cesta de compras das famílias da capital teve queda de preços de 0,50% na terceira semana de março, informou ontem o Instituto Fecomércio-RJ. A cesta, que inclui alimentos e produtos de higiene e limpeza, ficou em R$306,37 entre os dias 17 e 23. Já a inflação para os produtos comprados via internet teve queda de 1,22% em março, segundo pesquisa do Provar, programa de administração em varejo da USP.