Título: Alckmin se nega a apurar denúncia envolvendo o banco Nossa Caixa
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Fonte: O Globo, 27/03/2006, O País, p. 4

Ex-gerente afirma que instituição beneficiava aliados com verbas oficiais

SÃO PAULO. A menos de uma semana de deixar o governo de São Paulo para disputar a Presidência da República, Geraldo Alckmin (PSDB) foi atingido ontem por denúncias de direcionamento de verbas publicitárias do banco estatal Nossa Caixa. O esquema, segundo reportagem publicada ontem pelo jornal ¿Folha de S.Paulo¿, beneficiaria políticos da base aliada e veículos ligados ao próprio PSDB.

O ¿banho de ética¿ que Alckmin prometeu pode ser submetido agora a uma série de investigações na Assembléia Legislativa e no Ministério Público Estadual, segundo disseram ontem integrantes da oposição ao tucano.

Na reportagem, o jornal divulgou documentos mostrando que o Palácio dos Bandeirantes pressionou a Nossa Caixa a direcionar recursos. A lista de favorecidos pelo esquema envolveria desde deputados da base aliada até o ex-ministro da Comunicação Luiz Carlos Mendonça de Barros, cotado para compor a equipe econômica de Alckmin, caso ele seja eleito presidente.

Mensagens revelaram o caminho das verbas

Mendonça de Barros foi o criador do site ¿Primeira Leitura¿, um dos veículos beneficiados, e dono da Quest Investimentos, empresa gestora de fundos que foi escolhida pela Nossa Caixa para gerir cerca de R$55 milhões de um novo fundo.

Mensagens eletrônicas trocadas entre os envolvidos revelam como era feito o direcionamento das verbas. As ordens partiriam do assessor especial de Comunicação do governo, Roger Ferreira.

O ex-gerente de marketing do banco Jaime de Castro Júnior foi demitido por justa causa em dezembro por causa das irregularidades. Ele teria comprovado agora, num dossiê de 42 páginas, as pressões, inclusive em trocas de e-mails com outros envolvidos. A sindicância interna da Nossa Caixa teria protegido outros envolvidos nas irregularidades, o que levou o ex-gerente a fazer a denúncia.

Alckmin disse ontem que não pretende investigar o caso, que, segundo avalia, ¿não tem a menor veracidade¿. O governador frisou apenas que as investigações foram feitas pelo próprio banco, o que dispensaria novas apurações. Alckmin também afirmou que não demitirá nem punirá Roger Ferreira, apesar do conteúdo das mensagens eletrônicas.

¿ Não (vou investigar). A investigação foi feita pela Nossa Caixa. Ela fez a sindicância, concluiu, encaminhou ao Ministério Público e ao Ministério Público. Há 500 veículos de comunicação e nós estamos falando de cinco casos. Agora, concluir que tenha ingerência política em 500 veículos? É totalmente pulverizada a estratégia de comunicação¿ disse o pré-candidato.

Ainda segundo o governador, ninguém mais será punido pelo caso:

¿ Pessoas terceirizadas de agência não falam em nome do governo. (Roger) vai continuar no governo ¿ disse.

Líderes tucanos que acompanharam Alckmin ontem admitiram que ele ficou abalado com a denúncia. Mesmo assim, declarou não haver nenhum problema no fato de a denúncia ter surgido na largada de sua campanha, cujo mote é a ética.

¿ Se tiver que corrigir, se corrige. Se for improcedente, se explica¿ disse.