Título: A PROVA DE FOGO DE OLMERT
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 28/03/2006, O Mundo, p. 31
Partido de primeiro-ministro é o favorito nas eleições de hoje, mas não deverá obter maioria
Mais de cinco milhões de eleitores vão hoje às urnas eleger o novo governo que poderá estabelecer as fronteiras definitivas de Israel nos próximos quatro anos. Após meses de uma campanha eleitoral morna, nem mesmo a perspectiva de solução unilateral do conflito com os palestinos parece mobilizar os israelenses: segundo estimativas, o índice de comparecimento deve girar em torno de 65%, o mais baixo da história do país. Embora as últimas pesquisas de opinião dêem como certa a vitória do Kadima, liderado pelo primeiro-ministro em exercício Ehud Olmert, os números indicam queda no apoio ao recém-criado partido de centro, que conquistaria 34 das 120 cadeiras da Knesset, o Parlamento.
As estatísticas mostram ainda que o Partido Trabalhista alcançaria 21 cadeiras e o direitista Likud, apenas 13, seguido de perto pelo partido de ultra-direita Israel Nossa Casa, com 12. Segundo analistas, os números ameaçam desde agora a capacidade administrativa do novo governo. Caso as previsões se concretizem, será ainda mais difícil para Olmert montar uma coalizão de governo de centro-esquerda capaz de apoiar seu plano de desmantelar colônias judaicas na Cisjordânia e definir as fronteiras de Israel até 2010. Moldado na retirada unilateral da Faixa de Gaza, em agosto passado, o projeto prevê o fim dos assentamentos ilegais em territórios palestinos e a anexação de três grandes blocos de colônias, Maaleh Adumin, Gush Etzion e Ariel, ao território israelense.
Indecisos chegam a 22% do eleitorado
O sobe-e-desce das pesquisas é agravado pelo alto percentual de indecisos, que chega a 22% do eleitorado. A batalha pelo voto de última hora levou os candidatos às ruas e aqueceu o último dia de campanha. Ativistas aproveitaram o dia para espalhar faixas e cartazes pelas principais avenidas de Tel Aviv e folhetos eram distribuídos nos sinais de trânsito. Em Jerusalém, a ministra do Exterior e um dos principais nomes do Kadima, Tzipi Livni, teve de ser escoltada por policiais ao fazer uma visita ao mercado Machané Yehuda. Simpatizantes da direita atacaram a comitiva de Livni, provocando empurra-empurra e muita gritaria. Manifestantes anti-Kadima seguiram a comitiva e a confusão se estendeu até o principal shopping da cidade, onde a visita acabou sendo encurtada sob intervenção policial.
O líder do Likud, Benjamin Netanyahu, escolheu o Muro das Lamentações para sua última aparição antes da abertura das urnas. Já os trabalhistas fecharam a campanha distribuindo flores a simpatizantes do centro de Tel Aviv. Preocupado com a queda nas pesquisas, Olmert foi o único a evitar o contato com o público. Segundo fontes do Gabinete, o premier em exercício preferiu manter sua agenda normal de compromissos e apenas reuniu-se com Shimon Peres para traçar planos estratégicos pós-eleições.
A polícia israelense mobilizou 22 mil homens num esquema especial de patrulhamento para garantir que a votação transcorra tranqüilamente. A segurança em shoppings e áreas de lazer também foi reforçada e as Forças de Defesa de Israel decretaram o fechamento de todas as fronteiras com a Faixa de Gaza e a Cisjordânia desde as primeiras horas da manhã. De acordo com o Shin Bet, serviço de informação interna, há pelo menos 85 alertas contra tentativas de infiltração de terroristas do grupo Jihad Islâmica vindos da Cisjordânia, sendo que 14 são considerados alertas contra alvos precisos.