Título: NOVO SECRETÁRIO EXIGE RESPEITO DE BANDIDOS
Autor: Gustavo Goulart e Sérgio Ramalho
Fonte: O Globo, 01/04/2006, Rio, p. 21

Recado de Roberto Precioso a criminosos para que não temam a secretaria é alvo de críticas de especialistas

Ao assumir ontem a Secretaria de Segurança no auditório da instituição, o delegado federal Roberto Precioso Júnior causou polêmica ao mandar um recado à criminalidade.

¿ Não temam a Secretaria de Segurança Pública do Rio, pois homens não temem homens. Só peço e exijo respeito à secretaria ¿ disse Precioso, que recebeu o cargo de Marcelo Itagiba.

A frase foi recebida de forma negativa por representantes de entidades civis e especialistas em violência. Para o presidente da seção Rio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), Octávio Gomes, o secretário cometeu um equívoco ao igualar bandidos e policiais, dizendo que homens não temem homens.

¿ O criminoso tem sim que temer o império da lei, tem que temer e respeitar a polícia.

De acordo com o presidente da OAB, o novo secretário de Segurança foi infeliz ao exigir respeito à instituição da secretaria, sem dar destaque ao policial.

Presidente de associação vê marginalização do policial

Na opinião do presidente da Associação dos Ativos e Inativos da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, Miguel Cordeiro, a frase demonstra a continuidade da política de marginalização do policial.

¿ A Secretaria de Segurança está há anos sendo entregue a pessoas sem compromisso com a população, que não valorizam o policial. O recado do novo secretário é mais um ato do governo para marginalizar o policial ¿ disse Cordeiro.

De acordo com o sindicalista, a frase é parte de uma política que alimenta a imagem da banda podre:

¿ Não defendo o mau policial, o que não se dá ao respeito e é minoria.

Presidente da Associação dos Delegados de Polícia Civil (Adepol), Wladimir Reale interpretou de forma diferente as palavras do novo secretário:

¿ Pela biografia de Precioso, acho que ele quis dizer que a polícia precisa ser temida para ser respeitada. Eu o conheço há muitos anos e sei que ele se referia à recuperação do respeito dos bandidos pela polícia. Ou se rendem ou é chumbo ¿ disse Reale.

O sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análises da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), acredita que Precioso foi machista no comentário.

¿ A frase remete à questão da honra, da moral, que não devem ser prioridades da polícia. Alguns setores preferem o temor por parte da criminalidade. A frase também é machista. Não há mulheres na polícia e na criminalidade? ¿ perguntou Cano.

Para tentar minimizar o efeito da frase de Roberto Precioso, o novo chefe de Polícia Civil, delegado Ricardo Hallack, disse ao tomar posse em seguida.

¿ O novo secretário disse que tem que haver respeito. O respeito está muito acima do temor. O respeito às leis e à ordem, obrigação de todo cidadão. Caso contrário, conhecerá o rigor da polícia, que tem que prender e levar à Justiça quem não respeitar a lei ¿ disse.

Segundo nota oficial da Secretaria de Segurança, o secretário Precioso ressaltou que, ao contrário do que foi interpretado, ¿os que ultrapassarem os limites estabelecidos pela lei serão combatidos duramente¿.

Polêmica à parte, Precioso defendeu a continuidade da política de segurança.

¿ Será um combate sem tréguas à criminalidade. Prometo o maior empenho no cumprimento do meu dever ¿ frisou.

O delegado também citou o pensador francês Anatole France (Jacques François Thetault, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1921, nascido em 1844 e morto em 1924). O secretário disse que sua carreira sempre foi norteada pela seguinte frase do pensador ¿Os direitos da Justiça são sagrados; os dos delinqüentes são duas vezes sagrados; mas os da sociedade são três vezes sagrados¿.

Policial anunciando greve causa constrangimento

Durante a cerimônia de posse de Hallack, na Academia de Polícia Civil, uma inspetora da 9ª DP (Catete) subiu ao palanque com um colete com a inscrição ¿greve¿. Integrante do sindicato, ela foi retirada à força do palco pelo corregedor-geral da Polícia Civil, delegado Paulo Passos, auxiliado por outro policial.

A cena gerou constrangimento entre as autoridades. Enquanto era retirada do palanque, a policial dizia que estava ali apenas para anunciar a suspensão da greve, num voto de confiança ao novo chefe de polícia. Após o incidente, Ricardo Hallack disse estar aberto ao diálogo com a categoria. O delegado confirmou que participará de uma reunião com representantes do sindicato na próxima semana.