Título: TARSO GENRO X MÍDIA
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 02/04/2006, O País, p. 4

O recém-nomeado ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, enviou a um grupo de militantes e simpatizantes petistas uma ¿breve análise sobre a conjuntura política¿ escrita no calor da hora, na noite do dia em que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi substituído, na definição de Genro, ¿após um dramático percurso de desgaste¿. O texto, embora semelhante aos que torna públicos em jornais e revistas, é mais solto e dá uma noção clara de como pensa o novo coordenador político do governo, especialmente em relação à imprensa.

Adepto da teoria da conspiração, ele identifica no que chama de ¿subtexto¿ da saída de Palocci ¿uma santa aliança sendo articulada em toda a grande mídia, com exceções mínimas¿ para atacar os ¿avanços democráticos¿ do governo Lula e fazer voltar políticas do governo anterior.

Ele começa citando uma série de fatos que, segundo afirma, foram tratados de maneira ¿natural¿ pela mídia, com alguns comentaristas ainda elogiando ¿atos de marginalidade política¿, como a agressão a bengaladas ao ex-deputado José Dirceu ou a ameaça do senador Arthur Virgilio, líder do PSDB, de dar um soco no presidente. Genro cita a divulgação de dados obtidos com a quebra do sigilo do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e supostas violações de dados sigilosos das CPIs, o que considera mais grave do que violar sigilo bancário, e diz que ¿nenhuma indignação ou reflexo importante foram vistos na mídia `democrática¿ do país¿.

Segundo Genro, esse tratamento de ¿dois pesos e duas medidas¿ significa que está em curso ¿uma tentativa de eliminação política da esquerda com credenciais democráticas para governar¿. Mais ainda: ¿Está em curso um claro processo de recuperação ¿- aproveitando nossos erros ¿ do projeto tucano-pefelista e dos seus conhecidos padrões de honestidade pública, já revelados nos processos de privatização¿. Genro insiste em que ¿o governo Lula está sendo atacado pelas suas virtudes, pelas políticas progressistas que desenvolve em diversas áreas, pela ¿plebeização¿ do processo democrático no país¿.

O objetivo dessa conspiração seria voltar ¿aos tempos das privatizações selvagens para ¿enxugar¿ o Estado; voltar aos tempos em que os movimentos sociais estavam em permanente ameaça de criminalização; voltar ao período de alinhamento automático com os EEUU; retomar a liquidação do ensino público superior como ocorria na época do ministro Paulo Renato; privatizar totalmente o setor elétrico; acabar com a ¿gastança¿ do Bolsa Família¿, além de querer ¿um governo que ajude os EEUU a promover a Alca e isolar as experiências progressistas na América Latina¿.

Recentemente, travei com Tarso Genro uma troca de mensagens sobre o papel da mídia nas democracias modernas que reflete bem seu pensamento. Transcrevo aqui nosso diálogo com a permissão dele. Em colunas anteriores, eu havia criticado Tarso Genro por idéias expostas em seu livro ¿A esquerda em progresso¿, especialmente pela defesa de conselhos estatais para controlar os meios de comunicação.

Ele me respondeu dizendo que achava ¿muito estranho que um presumido Conselho, que tenha representantes do três Poderes, de todos os partidos políticos e representantes eleitos nos Estados da Federação, sem poder de legislar, seja considerado um controle¿.

Segundo ele, esses conselhos garantiriam ¿a liberdade de informação e o livre trânsito de opiniões na sociedade democrática¿, pois ¿a democracia é incompatível com o controle da opinião pública por uma mídia unilateral. Seja a partir do Estado, seja a partir de grupos ideológicos sem a mínima isenção¿.

Respondi-lhe que compartilhávamos a idéia da defesa da pluralidade de opinião, mas não compreendia que um democrata quisesse controlar a opinião pública através de conselhos estatais, interferindo na livre escolha do cidadão.

A sociedade tem à sua disposição diversos jornais, revistas, televisões, rádios, das mais variadas tendências, e de variados grupos empresariais, e deve fazer sua opção livremente, não sob a orientação de órgãos governamentais. Caberia ao estado garantir que, através da educação, a sociedade tenha condições de escolher, escrevi em resposta.

Tarso Genro replicou lembrando que o conceito de liberdade de imprensa ¿é uma questão verdadeiramente complexa, que é enfrentada por todas as democracias maduras. Lembro-te, por exemplo, a cobertura da Guerra do Golfo nos EEUU ¿ ¿todos os cidadãos americanos encantados com os bombardeios limpos¿ ¿ e a unanimidade da imprensa americana sobre a necessidade da invasão no Iraque¿.

Seria contra este controle e esta ¿naturalização¿ da opinião unilateral, de quem domina o poder político no momento, que se colocaria a pluralidade e o ¿livre trânsito de opiniões¿, como uma nova exigência democrática, disse Tarso Genro em resposta. ¿É um antídoto a um certo tipo de mídia que pode ensejar uma forma pós-moderna de totalitarismo, cujo núcleo duro do controle é o poder econômico¿. Trata-se, na verdade, de um ¿ombudsman¿ coletivo da sociedade civil, exemplificou ele.

Retruquei concordando plenamente com os exemplos que ele dera, mas afirmei que não acreditava que um conselho governamental fosse a solução. Os prejuízos que a sociedade americana sofreu com a parcialidade da imprensa nos primeiros meses da guerra estão sendo revertidos hoje com a autocrítica dos meios de comunicação e uma ampla revisão de procedimentos, respondi.

O antídoto, portanto, foi a própria liberdade de opinião, que acabou revelando os desvios do governo americano e colocando em debate, através da sociedade civil, o papel submisso da imprensa. Pelos comentários que enviou aos militantes do PT, vejo que o ministro Tarso Genro continua acreditando em conspirações e controles.