Título: `QUERO ESCREVER UM LIVRO¿
Autor: Ruben Berta
Fonte: O Globo, 02/04/2006, Rio, p. 24
Menor que fez denúncias critica sistema sócio-educativo
Em entrevista na última sexta-feira no Educandário Santo Expedito (ESE), o jovem de classe média, autor das cartas que denunciam as torturas na unidade, evitou falar sobre os maus tratos que recebeu. Apesar da presença de uma comissária de menores, munida de um ofício autorizando a realização da reportagem, um agente da unidade insistiu em afirmar que tinha ordens para ouvir a entrevista. A privacidade para a conversa foi conseguida a muito custo. Além de planos para o futuro, o menor falou suas impressões sobre o sistema: ¿É o sócio-educativo. Para a sociedade do crime¿.
VIDA FÁCIL: ¿Eu descobri na vida que levei no crime que ter dinheiro não é nada, se você não está bem consigo mesmo. Teve época em que eu ia morar de temporada em apartamento na Zona Sul, de frente para a praia com o dinheiro que ganhava. Vida cheia de luxo, mas não tinha minha família. Minha mãe não me aceitava assim. Hoje, percebo que o que tinha não valia nada. Preferia estar em casa ouvindo uma bronca da minha mãe.
FUGA: Quando eu fugi do ESE, busquei a minha família. Sabia que, se continuasse fazendo as coisas que eu fazia quando era menor de idade, depois dos 18 anos, ia ficar uns 15 aninhos preso, esquecido... Não é isso que eu queria para a minha vida. Então pensei: eu conseguindo largar a droga, vou conseguir parar de estar com criminosos. Comecei a batalhar para sair dessa, tirei os documentos, mas aconteceu de eu dormir e ser pego. Mas se Deus quis que a polícia viesse contra mim, melhor assim...
MEDO: Enquanto eu estou aqui, não sei o que pode acontecer daqui a uma hora. Sei que agora eles (os agentes) não vão me maltratar diretamente. Eles não são burros. Mas eles podem fazer o que quiserem. Podem me colocar na cela da facção rival e lá você já sabe o que pode acontecer. E se os agentes resolverem fazer isso possivelmente nada vai acontecer com eles.
ESCOLA DO CRIME: Em geral, todo mundo sai daqui pior do que entra. Quem entra como ladrão de supermercado, sai com conhecimentos de traficante, de matador. Só sai com mais conhecimentos do lado errado. Quem sai daqui perto dos 18 anos por ter roubado um cordão é indicado para ir lá para o morro pelo amigo aqui da cadeia. As coisas funcionam assim. É o sistema sócio-educativo. Para a sociedade do crime.
FUTURO: Quero escrever um livro. Estou escrevendo letras de música também. Vou batalhar, arranjar um emprego, e engolir sapo na casa da mamãe.