Título: Serraglio ameaça indiciar Lula no relatório
Autor: Maria Lima e Bernardo de la Peña
Fonte: O Globo, 04/04/2006, O País, p. 9
BRASÍLIA. Certos de que poderão ter os 16 votos para aprovar o relatório oficial, integrantes da oposição na CPI dos Correios e o relator Osmar Serraglio (PMDB-PR) desistiram de tentar um acordo com o governo para mudanças no texto. Depois de várias reuniões com a oposição, Serraglio anunciou que se o PT insistir em tirar do texto a palavra mensalão e caracterizar o valerioduto como recursos de caixa dois, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que ser indiciado por crime de responsabilidade, já que há provas de que parte do dinheiro quitou dívidas da campanha do presidente eleito, durante o exercício do mandato, em 2003 e 2004.
¿ Se eu admitir o raciocínio de que não existiu mensalão, e sim caixa dois, terei que pesar a caneta e indiciar o presidente Lula por crime de responsabilidade. Temos provas, dadas por Duda Mendonça e Valdemar Costa Neto, que revelaram ter usado dinheiro do valerioduto para quitar dividas de campanha de Lula, inclusive no segundo turno ¿ afirmou o relator.
De acordo com Serraglio, se seu parecer for rejeitado e aprovado outro com a tese do caixa dois, qualquer partido pode usá-lo para pedir o impeachment de Lula.
A oposição decidiu ir para o confronto na discussão e votação do relatório a partir de hoje. No fim do dia, depois horas reunidos no Palácio do Planalto, integrantes da cúpula petista admitiram recuar da disposição de trocar mensalão por caixa dois. E acenaram com a possibilidade de os líderes do PTB e do PMDB entrarem em campo para substituir os deputados Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e Asdrúbal Bentes(PMDB-PA), que anunciaram a intenção de votar a favor do relatório Serraglio.
Se os dois votarem, o resultado seria de 16 a 14 a favor de Serraglio. Se forem pressionados a sair, inverteria o placar a favor do governo. Se o relatório de Serraglio for rejeitado, ele diz que a oposição pode recriar uma outra CPI usando o material jogado no lixo.
Um dos negociadores do PT, Mauricio Rands (PT-PE), sub-relator geral, admitiu dificuldades de conceituar o repasse de recursos ilegais.
¿ O importante é deixar claro no relatório que não houve vinculação entre os repasses e compra de votos¿ disse Rands.