Título: RACIONAMENTO COM FIM RÁPIDO
Autor: Patricia Duarte, Cássia Almeida e Flávio Freire
Fonte: O Globo, 10/04/2006, Economia, p. 14

Governo acredita que o corte no fornecimento de gás termine na próxima semana

Oracionamento de gás natural, anunciado pelo governo na última sexta-feira, poderá acabar na próxima semana. O Ministério de Minas e Energia acredita que o corte no fornecimento, que começa amanhã, não vai durar muito tempo. Técnicos do governo avaliam que o abastecimento começará a ser normalizado a partir da semana que vem, quando as obras de recuperação no duto na Bolívia já devem estar concluídas. O programa de racionamento foi anunciado depois de a Petrobras ser impedida ¿ devido a bloqueios em estradas por moradores do Sul da Bolívia ¿ de chegar com os caminhões para o conserto do duto, danificado pelas fortes chuvas na região Gran Chaco.

Mas fontes ligadas ao governo acreditam que o racionamento não chegará a atingir os consumidores residenciais e de veículos e pouco afetará a indústria. Como a Petrobras cortará cerca de 12 milhões de metros cúbicos de gás dos 24 milhões que consome, é possível que a redução seja limitada à companhia petrolífera e às termelétricas, cujo consumo será cortado em 72%.

¿ Estamos vivendo um momento confortável. Os reservatórios das hidrelétricas estão cheios e não está sendo preciso ativar as termelétricas ¿ disse Adriano Pires, professor de Economia de Energia da UFRJ.

Rio poderá desviar gás para São Paulo

O ministério estima que as obras de recuperação do duto durem entre cinco e sete dias, caso não ocorram novos problemas. De acordo com o ministério, após esse período o governo decidirá se ainda será necessário manter por mais alguns dias o racionamento, que começa amanhã nas regiões Sudeste e Sul.

O secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio, Wagner Victer, disse que a CEG, do estado, não poderá assumir compromissos de cortes no fornecimento sem antes falar com a Secretaria.

¿ A concessão é estadual e temos uma regra: nem as residências nem os veículos serão afetados com o racionamento. Vamos procurar as oito maiores consumidoras industriais que possam converter a produção para outro combustível.

O secretário disse ainda que, pela ¿solidariedade federativa¿, o Estado do Rio poderá desviar o gás para outras regiões mais dependentes do combustível da Bolívia, como São Paulo. No Rio, o fornecimento vem todo da Bacia de Campos:

¿ Temos condições de mandar mais cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos por dia, se for necessário.

Victer disse que é a segunda vez que o país enfrenta problemas com o fornecimento de gás natural da Bolívia, e o governo federal não montou um plano de contingenciamento com os estados.

¿ Outro caminho é tornar mais flexíveis, temporariamente, as normas de emissões de gases. A Petrobras diz que não pode cortar mais o seu consumo por causa dessas regras ¿ disse o secretário.

Antes da crise, a Bolívia fornecia ao Brasil cerca de 26 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, pouco mais da metade do consumo total do país, de 48 milhões de metros cúbicos. Com os problemas, o fornecimento havia baixado para menos de 19 milhões de metros cúbicos e deve chegar a 15 milhões até amanhã.

Um dos estados que será mais atingido pelo racionamento de gás proveniente da Bolívia, São Paulo começa a se preocupar com a situação. Governantes e industriais pedirão socorro a estados que não passarão pelo racionamento. De todo o gás consumido em São Paulo, 75% são provenientes da Bolívia. O vice-presidente da Fiesp, Saturnino Sérgio da Silva, embora considere a situação episódica, acha que o problema deve servir de alerta para o governo criar uma política para o setor:

¿ Um racionamento desse é indesejável, pois começaríamos a perder a confiança no fornecimento desse produto. É preciso ter uma lei, que passaria pela regulamentação sobre a produção, o transporte e a distribuição do produto ¿ diz Silva, lembrando que o corte atingiria cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de gás diariamente.

Até ontem, segundo ele, nenhuma empresa foi afetada.

Secretário de SP quer estado de emergência

O secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, disse ontem que o governo deveria decretar estado de emergência para contornar a situação. O decreto passaria, na sua opinião, por uma ajuda mútua de estados que trabalham com gás nacional às regiões atingidas.

¿ Os estados são responsáveis pela distribuição, mas não pelo transporte e fornecimento. Quem tem o controle do processo, no caso, é o governo federal ¿ afirmou.

São Paulo consome diariamente de 13 milhões a 14 milhões de metros cúbicos de gás.