Título: O DRAGÃO NUCLEAR MOSTRA OS DENTES
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 16/04/2006, OPINIÃO, p. 7

Não é apenas o acelerado crescimento econômico chinês que vem deixando o mundo em alerta. A chamada ¿ameaça chinesa¿ ¿ que é como a comunidade internacional costuma definir a capacidade da China de inundar o planeta com seus produtos baratos ¿ também pode ser militar. Os gastos com Defesa na China chegaram a US$30,5 bilhões em 2005, segundo o governo de Pequim. E o previsto para este ano é de US$35,1 bilhões ¿ aumento de 14,7%. Mas o número deve ser pelo menos o dobro, nas contas do Pentágono. Estudos do Centro para Controle e Não-Proliferação de Armas, uma ONG de Washington dedicada a combater o armamentismo, mostram que a despesa chinesa pode ter chegado a US$62,5 bilhões em 2005, o que coloca o país hoje como o segundo maior orçamento militar do mundo, atrás apenas do americano. No recente programa estratégico de Defesa do Pentágono, a China é descrita como ¿o país com maior potencial para competir militarmente com os EUA nas próximas décadas¿. O ministro das Relações Exteriores do Japão, Taro Aso, fez coro com os EUA e classificou de ameaça o crescimento dos gastos militares chineses. ¿ Um país vizinho com mais de um bilhão de pessoas, armas nucleares e gastos militares que vêm crescendo a taxas de dois dígitos anuais com pouquíssima transparência pode ser considerado uma ameaça ¿ afirmou. A China nega, claro. ¿ Nós somos uma importante força a promover a paz e a estabilidade na região do Pacífico na Ásia e no próprio mundo. Os gastos são transparentes. Nós não somos, nem seremos, uma ameaça ¿ disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Kong Quan, que aponta para os gastos americanos como ¿os verdadeiros gastos exorbitantes¿. Não foi por outra razão que o anúncio da previsão do orçamento militar dos EUA para 2007 ganhou enorme repercussão na mídia asiática, em especial a estimativa de gastos de US$462,7 bilhões, um aumento de 5,9% em relação ao orçamento do Pentágono deste ano (US$441,6 bilhões). A numeralha esconde um fato alarmante para os analistas de Defesa na Ásia. O continente iniciou uma nova corrida armamentista, extremamente perigosa para uma região que vive no fio da navalha em termos de coexistência pacífica. A escalada dos gastos americanos impulsiona os gastos chineses, o que faz o Japão pregar com maior insistência a volta da militarização do país com a recriação das suas Forças Armadas, proibidas desde 1947 após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Rússia, por sua vez, reiniciou seu ambicioso programa de modernização militar (após a crise do colapso soviético) e já é hoje o terceiro maior orçamento militar do mundo (estimam-se os gastos em US$61,9 bilhões em 2005). Há eternas ameaças do separatismo de Taiwan e das armas nucleares da Coréia do Norte que, ao contrário do Irã, tem tecnologia de sobra para a fabricação de ogivas, se é que já não as possui. Mas a questão nuclear na Ásia ganhou destaque absoluto com o recente acordo entre EUA e Índia, um país que sempre dispensou ajuda tecnológica nuclear de outros países para uso civil justamente porque queria fabricar suas próprias bombas atômicas. A Índia não assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNPN), ao contrário do que foi feito por 188 países do mundo. Para muitos, o apoio de tecnologia nuclear do governo Bush à Índia rasga solenemente este tratado. Thomas Friedman no ¿New York Times¿ fez a pergunta pertinente: ¿ Japão, Brasil e Argentina abriram mão de armas nucleares para ganhar acesso a tecnologia nuclear civil seguindo os termos do TNP. O que eles vão pensar se a Índia tem agora um passe livre? Brasil e Argentina podem estar numa região relativamente pacífica do planeta. Mas, a julgar pelas reações de surpresa e inconformismo de especialistas da turbulenta Ásia (lugares tão diferentes quanto Austrália, Tailândia, Indonésia e Filipinas) ao acordo nuclear EUA-Índia, pode-se afirmar que o dragão nuclear arreganhou novamente seus dentes.