Título: FMI ALERTA QUE PREÇO DO PETRÓLEO CONTINUARÁ ALTO
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 21/04/2006, Economia, p. 31

Rato afirma que países terão de ajustar sua economia. Para Wolfowitz, Brasil sofrerá menos graças ao etanol

WASHINGTON. O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Rodrigo de Rato, alertou ontem que os altos preços do petróleo devem perdurar por muito tempo e disse que os países terão de se ajustar adequadamente para evitar um retrocesso em seu crescimento econômico. Um estudo do Fundo indicou que ¿uma considerável proporção do recente choque será permanente¿.

Segundo Rato, o impacto por enquanto tem sido moderado porque a elevação dos preços está sendo alimentada basicamente pelas preocupações em relação ao fornecimento de petróleo. O próximo efeito, no entanto, deve provocar estragos mais pronunciados:

¿ É muito provável que a crescente alta dos preços alimente a inflação e afete negativamente o crescimento.

A receita do FMI é melhorar o equilíbrio entre fornecimento e demanda a médio prazo, reduzir obstáculos aos investimentos, repassar totalmente os aumentos aos consumidores, revigorar os programas de conservação e melhorar as estatísticas do mercado de petróleo.

¿ Vai demorar um pouco para que tais medidas surtam efeitos, mas adotá-las ajudará a manter a calma no mercado do petróleo ¿ afirmou Rato.

Alta do barril custou à China 4% do PIB em três anos

O presidente do Banco Mundial (Bird), Paul Wolfowitz, falando também no segundo dia da reunião conjunta de FMI e Bird, sugeriu que o Brasil poderia ser menos afetado graças à alternativa criada pelo país anos atrás: o etanol. Ele insinuou que, além disso, o país poderia ganhar com a exportação de tecnologia nesse setor:

¿ Na área dos biocombustíveis, o Brasil é realmente um pioneiro em desenvolver com êxito um programa do etanol comercialmente competitivo. Eu acho que a longo prazo isso poderá ter um impacto enorme, bem além do Brasil.

Ontem, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse à Bloomberg News que os EUA deveriam cortar as tarifas de importação do etanol e permitir que o Brasil, que produz a preços mais baixos, atenda à demanda americana.

Pela avaliação do FMI, a alta do petróleo entre 2002 e 2005 custou à China, em importações do produto, o equivalente a 4% do seu Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto das riquezas produzidas num ano), e pouco mais de 1% aos EUA e outros países industrializados.

Rato critica `opiniões irrealisticamente otimistas¿

Rato mostrou-se muito preocupado com o fato de a maioria dos governos, em especial nos países ricos, não estarem tomando medidas para reduzir os desequilíbrios fiscais. Segundo ele, muitos concordam que é preciso um ajuste, além de medidas para estimular a poupança nos EUA, assim como a valorização do câmbio, o incentivo à demanda doméstica na Ásia emergente e reformas estruturais para encorajar a demanda e melhorar a produtividade na Europa e no Japão. Mas, disse Rato, esse consenso ainda não foi traduzido em ações. Ele acrescentou que há uma relutância, ¿reflexo da complacência¿:

¿ E essa complacência é revestida de um manto de respeitabilidade, por meio de argumentos de que os desequilíbrios globais persistirão para sempre ou se dissiparão gradualmente por conta própria. Eu acho essas opiniões irrealisticamente otimistas.