Título: SALTO NO TURISMO
Autor: George Vidor
Fonte: O Globo, 24/04/2006, Economia, p. 17
Dentro de quatro anos o turismo deve se tornar a principal fonte de receita em moeda estrangeira para o país, ultrapassando minério de ferro, soja, automóveis e petróleo. No ano passado, segundo o Banco Central, foi a quinta fonte de receita (US$3,9 bilhões), mas a este valor, segundo o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, devem ser acrescentados de US$800 milhões a US$1 bilhão.
É que muitos turistas estrangeiros pagam uma parte de suas despesas em dinheiro vivo, e esses gastos não entram na contabilidade do Banco Central. Mares Guia é um empresário bem-sucedido da área de educação, que fez carreira política em Minas Gerais e acabou convidado para a pasta do Turismo sem ter conhecido antes o presidente Lula. Não era do ramo, mas acabou se apaixonando pelo turismo ao se enfronhar no setor e perceber o que o segmento já representa no mundo dos negócios e o enorme espaço que o Brasil tem para ocupar nesse mercado, que em média corresponde a 10% do Produto Interno Bruto do planeta.
O turismo vem gerando mais de cem mil novos empregos com carteira assinada por ano no Brasil. E provavelmente bem mais do que isso sem carteira assinada. Para cada emprego direto criado no turismo, surgem quase dois indiretos. Hotéis, pousadas, restaurantes de turismo precisam trocar toalhas de mesa, guardanapos, fronhas, travesseiros, toalhas de banho a cada dois anos, só para dar um exemplo da demanda que o setor cria para a indústria têxtil.
Este ano, o Brasil deve receber 6,5 milhões de turistas estrangeiros, mas a meta fixada pelo Plano Nacional de Turismo para 2007 é de nove milhões de visitantes do exterior. O mesmo plano previu uma receita cambial anual de US$8 bilhões para o ano que vem, e a estimativa é que este ano o Banco Central contabilize pelo menos US$4,8 bilhões (mais US$1,5 bilhão entraria em dinheiro vivo, sem passar pela contabilidade do BC).
O ministro Mares Guia acredita que o Brasil poderá receber maior número de turistas americanos, canadense e japoneses se o Congresso aprovar um projeto, que ainda será enviado pelo governo, flexibilizando a lei da reciprocidade de 1980. Por essa lei, o Brasil impõe automaticamente a exigência de visto para entrada no país aos cidadãos de nações que estabelecem tal regra para brasileiros. Mas em certos casos, o presidente da República poderia suspender essa exigência.
O ministro do Turismo cita o caso do México para convencer seus pares no governo. Cerca de 70 mil mexicanos vêm ao Brasil por ano e nenhum deles com intenção de emigrar ilegalmente. Já 41 mil brasileiros foram presos no México por tentativa de entrar sem autorização nos Estados Unidos, pela fronteira. Então, o México acabou sendo obrigado a instituir o visto de entrada para brasileiros. Pela reciprocidade automática, mexicanos terão de solicitar visto para visitar o Brasil, e face a essa burocracia o número de turistas daquele país deve diminuir.
A flexibilidade da lei de reciprocidade poderia vigorar por um ou dois anos para que a prática mostre se funciona. Se nesse período o número de turistas estrangeiros não aumentar significativamente, a exigência automática de visto poderia ser restabelecida, diz o ministro.
Embora tenha havido todo esse crescimento (só para o Nordeste há 70 vôos semanais ligando as principais capitais da região à Europa), o turismo brasileiro detém apenas 0,6% do mercado mundial. Daí que grandes investidores começam a se interessar por esse espaço inexplorado. O maior operadora de turismo da Espanha, a Iberostar, do empresário Miguel Fluxá, está investindo US$330 milhões no país, construindo dois navios-hotéis que navegarão pelos rios da Amazônia e resorts com 1.600 apartamentos na Praia do Forte, próxima a Salvador.
A taxa de juros básica agora se aproxima do ponto crítico de 15%, aquele a que as autoridades monetárias jamais ousaram chegar desde o lançamento do real. Mas desde então a conjuntura econômica nunca se mostrou tão favorável para o corte dos juros. O que antes poderia parecer ousadia agora é uma necessidade, e seria até um crime contra os cofres públicos não permitir que os juros caiam para os patamares que o próprio mercado aponta como razoáveis e suficientes para se atingirem as metas de inflação.
Na reunião de 31 de maio do Comitê de Política Monetária (Copom), se a taxa básica for cortada em 0,75 ponto percentual, com os juros nominais baixando para 15%, em alguns cálculos os juros reais (descontada a inflação) serão inferiores a 10% ao ano, que é uma marca psicológica importante para o mercado financeiro.
Existe uma discussão entre os economistas se o país tem condições de conviver com uma taxa de juros real abaixo de 10%, sem que a inflação volte a nos incomodar. Somente na prática o Brasil terá essa resposta.
No entanto, a queda dos juros é capaz de criar um círculo virtuoso nas combalidas finanças públicas. Os encargos financeiros são hoje, disparados, o maior item de despesas do setor público, e se os juros nominais caírem para 13,5% ao ano em dezembro, como prevêem várias instituições financeiras, é até possível que em 2007 as contas governamentais fechem em total equilíbrio, sem déficit.