Título: LULA TENTA APARAR ARESTAS ENTRE PAÍSES LATINOS
Autor: Eliane Oliveira e Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 26/04/2006, Economia, p. 25
Presidente brasileiro recebe Uribe, que reclama de Chávez, e deve promover entendimento de Kirchner com Vázquez
BRASÍLIA, SÃO PAULO e BUENOS AIRES. Preocupado com a ameaça ao projeto de integração regional, o presidente Lula iniciou ontem uma ofensiva para aparar arestas na América do Sul. Um dos principais focos de tensão está na Comunidade Andina, devido aos acordos de livre comércio firmados por Colômbia e Peru com os EUA, o que levou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a anunciar sua saída do bloco. Lula conversou sobre o assunto com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, que pediu ajuda ao presidente brasileiro no impasse com Chávez.
¿ A liderança do presidente Lula na América do Sul é fundamental para que encontremos uma solução ¿ disse Uribe, que almoçou com Lula.
No encontro, Uribe assegurou que o acordo com os americanos não prejudicará as relações entre a Comunidade Andina e o Mercosul. E prometeu que, se a Bolívia tiver prejuízo com o tratado firmado com os EUA, a Colômbia dará algum tipo de compensação.
¿ Se a Venezuela pode vender petróleo aos EUA, por que não podemos vender produtos agrícolas? ¿ perguntou Uribe.
Segundo fontes do governo brasileiro, Lula não gostaria de se envolver nos conflitos do bloco andino, mas teme que a crise atrapalhe o projeto maior de integração. Até porque, o Mercosul também atravessa momento de tensão.
No encontro que terá hoje, em São Paulo, com os presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e da Venezuela, Lula conversará com Chávez sobre a proposta de paz colombiana e pedirá mais compreensão a Kirchner em sua briga com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. O Uruguai está impedido pelos argentinos de instalar duas fábricas de celulose na fronteira. Esse é apenas um dos motivos de queixa do Paraguai, que como o Uruguai, se sente insatisfeito com o Mercosul. Os dois países já ensaiaram, nos últimos meses, parcerias alternativas, entre elas com os Estados Unidos.
Para analistas argentinos, o Mercosul continua sendo a melhor opção para o país. A analista política Graciela Romer diz que cerca de 46% dos argentinos continuam defendendo o Mercosul e só 8% preferem a Área de Livre Comércio das Américas. Em Assunção e Montevidéu, o clima é diferente. Em fevereiro, a decisão dos governos do Brasil e da Argentina de criar o mecanismo de proteção à industria nacional foi considerada traição pelos governos de Paraguai e Uruguai, que se sentiram excluídos.
O chefe de Estado uruguaio está profundamente irritado com a chamada ¿Guerra do papel¿, travada com a Argentina. As duas fábricas que estão sendo construídas em seu país representam um investimento em torno de US$1 bilhão, o mais alto da História do Uruguai. A Argentina exige a suspensão das obras para a realização de estudos de impacto ambiental.
Paralelamente, moradores da argentina Gualeguaychú, na fronteira com o Uruguai, bloqueiam a ponte que une os dois países, causando danos à economia uruguaia. Vázquez quer que o conflito em torno das fábricas seja tratado no âmbito do Mercosul.
Camisa de time argentino com número 10 e nome Lula
Em São Paulo, Kirchner deu ontem à noite uma camisa do Racing, time do qual é torcedor, para o presidente Lula. A camisa, de listras azuis e brancas, provocou certa confusão por ser muito parecida com a da seleção argentina. Quando viu a marca do patrocinador do clube de Buenos Aires, a Petrobras, Lula não teve dúvida: tirou o paletó e a vestiu. Atrás da camisa estava escrito o número 10 e o nome Lula.
(*) Correspondente